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Dom Pedro II: entre a poesia, a história e a memória

POR LUIZ GONZAGA MARTINS COÊLHO

Promotor de Justiça, acadêmico da Amclam, titular da cadeira nº 11, patroneada por Josué Montello

Palestra sobre Dom Pedro II foi proferida pelo professor Márcio Aleandro Correia Teixeira

A Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam) viveu, na noite da última quinta-feira (7), uma daquelas experiências que permanecem na memória. Antes do tradicional Ciclo de Palestras – Elogio ao Patrono, em sua oitava edição, a Academia promoveu um Sarau Literário marcado pela sensibilidade, pela beleza da palavra e pela força da cultura.

Poetas e poetisas de diversas academias ocuparam a cena com versos sobre o amor, a natureza, os personagens da vida e o cotidiano. Valterline Maia, José João, Maura Luza, Castro, Lopes e Furtado, entre outros nomes, deram voz à poesia e arrancaram aplausos calorosos de uma plateia envolvida por emoção e encantamento.

Nesse ambiente tomado por uma verdadeira aura literária, o confrade e professor Márcio Aleandro Correia Teixeira proferiu brilhante conferência sobre a vida e a obra de Dom Pedro II, patrono da Cadeira nº 34 da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares. Amparado em amplo estudo e em sólida pesquisa de renomados historiadores brasileiros, o palestrante conduziu os presentes por uma viagem histórica sobre a trajetória daquele que foi o segundo e último imperador do Brasil.

Dom Pedro II ocupa lugar singular na história nacional. Chamado por muitos de “o Magnânimo”, governou o Brasil por 49 anos, o mais longo reinado de nossa história, período marcado por estabilidade política, expansão econômica, modernização administrativa e afirmação do sentimento de pertencimento nacional.

Governou em um dos períodos mais turbulentos da história brasileira, atravessando revoltas sangrentas como a Cabanagem, a Farroupilha, a Balaiada e a Sabinada. Ainda assim, destacou-se como figura moderadora e pacificadora, conduzindo o país à consolidação de um Estado moderno, sustentado por reformas estruturais, fortalecimento institucional e avanços econômicos.

A palestra ressaltou não apenas o governante, mas também o homem. Órfão da nação desde cedo, Pedro de Alcântara teve a vida privada absorvida pelo Estado. Recebeu formação rigorosa, marcada pela disciplina, pelo humanismo, pelo amor aos livros, à ciência e ao conhecimento. Era um monarca culto, reservado, intelectualizado, mais identificado com o saber do que com o poder.

Outro ponto de relevo foi sua postura diante dos grandes conflitos do Império. Embora avesso à guerra e à violência, Dom Pedro II teve de conduzir o país durante a Guerra do Paraguai, episódio que, apesar de suas dores e contradições, contribuiu para consolidar a ideia de nação brasileira.

Também se destacou seu papel no gradual processo de desmontagem do sistema escravocrata. Sob sua influência política e moral surgiram medidas como a Lei do Ventre Livre, em 1871, e posteriormente a Lei dos Sexagenários, culminando com a assinatura da Lei Áurea, em 1888, pela princesa Isabel. A abolição da escravidão, embora histórica, rompeu alianças com setores da elite agrária e contribuiu para o enfraquecimento da sustentação política da monarquia.

Já debilitado fisicamente, aos 64 anos, Dom Pedro II partiu para o exílio após a Proclamação da República, seguindo inicialmente para Portugal e depois para Paris, onde viria a falecer em 1891. Pouco antes da morte, em um quarto de hotel, escreveu aquele que seria considerado seu verdadeiro testamento político: a célebre Fé de Ofício. Nesse documento, revelou o permanente conflito entre o Brasil que fora obrigado a administrar e a nação moderna que sonhava construir.

O Brasil idealizado por Dom Pedro II era um Estado livre da submissão religiosa, comprometido com o fim definitivo da pena de morte, com a superação das prisões insalubres e com a criação de universidades destinadas a combater o analfabetismo. Defendia investimentos em saúde pública guiados pela ciência, capazes de erradicar epidemias urbanas, além da construção de habitações populares dignas para os mais pobres. Para o imperador, a ignorância era o maior inimigo do Brasil.

Após a divulgação do documento, o Visconde de Taunay eternizou sua relevância histórica ao afirmar: “Eis o que recebi de Sua Majestade Dom Pedro II e entrego à publicidade, como um dos documentos mais belos, mais sinceros e honrados da história do Brasil.”

Diante da Proclamação da República, Dom Pedro II preferiu não resistir. Optou por evitar derramamento de sangue e preservar a unidade nacional. Esse gesto, muitas vezes interpretado como passividade, pode também ser compreendido como coerência com sua trajetória de moderação, equilíbrio e contenção do conflito.

O que se testemunhou na Amclam foi uma harmoniosa convergência entre poesia, cultura, história e conhecimento científico. A palavra poética preparou o espírito; a conferência iluminou a razão. Em uma mesma noite, a Academia reafirmou sua vocação de celebrar a memória, cultivar o saber e preservar os grandes nomes que ajudaram a construir o Brasil.

Dom Pedro II permanece, assim, como figura fascinante da história nacional: imperador, intelectual, homem público e servidor de uma ideia de Brasil. E a Amclam, ao revisitar sua vida e obra, não apenas homenageou um patrono, mas também convidou todos os presentes a refletirem sobre estabilidade, cultura, dever público e grandeza institucional.

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