Um chamado à racionalidade

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA DE ALMEIDA
Membro do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão
E-mail: [email protected]
Instagram: joseluizoalmeida
Tenho tido dificuldade de conviver com exibições de irracionalidade, decorrentes de um radicalismo exacerbado que contamina e cega as pessoas, mesmo aquelas que supúnhamos, no passado, dotadas de algum senso crítico. A fala irresponsável e mentirosa nunca teve tanta repercussão quanto nos dias presentes; nunca, em tempo algum, a desinformação foi tão valorizada. Disso resulta que a falsificação da verdade tem repercutido em proporções e com consequências estupefacientes, permeando a vida social com uma toxicidade jamais sentida.
Dirão alguns, numa visão reducionista, que tudo isso é apenas uma das consequências mais visíveis do nosso atraso, quando, na verdade, digo eu, é resultado de uma crise moral sem precedentes, que contamina uma parcela expressiva e barulhenta da sociedade. A mentira não se confunde com atraso ou ignorância, mas com falta de caráter de quem a veicula e de quem, no mesmo passo, se encarrega de replicá-la nas redes sociais.
Empatia, solidariedade, altruísmo? Nada disso importa aos extremistas, aos protagonistas das notinhas tendenciosas e mendazes que são veiculadas, pois o objetivo é mesmo confundir, fazer rebuliço na mente do incauto cidadão, sobretudo daquele suscetível a acreditar em mentiras.
A percepção que tenho, nesse quadro desalentador, é a de que o Estado, por meio de seus órgãos de controle, perdeu a força que antes detinha e impunha; perdeu o rumo, está sem direção. Daí que cada um diz o que quer, veicula o que quer, vale-se das redes sociais, terra de ninguém, para disseminar inverdades, atacar desafetos e destruir reputações, ciente da impunidade.
Não defendo a censura. Ninguém, minimamente racional, a defende. Mas é chegada a hora da adoção de providências tendentes a obstar a veiculação de falas e raciocínios insanos, a fim de romper com esse grave quadro de degradação pelo qual passamos, em detrimento, até, da harmonia familiar. Nesse sentido, as instâncias de controle devem reagir com eficiência para, sempre que uma notícia irresponsável for veiculada, retirá-la das redes sociais, sabido que, nos dias presentes, há uma parcela relevante da sociedade que se informa apenas por meio de notinhas da internet, espaço privilegiado para a disseminação de inverdades.
A verdade é que uma notícia falsa, máxime aquela que recebe a chancela de uma liderança política, pode ter efeitos desastrosos para o conjunto da sociedade. E tem, efetivamente, efeitos danosos, como todos estamos cansados de testemunhar.
A realidade é que, no mundo radicalizado em que vivemos, qualquer asneira dita por um líder pode representar um perigo em potencial para a sociedade, a exemplo do que ocorreu, na época da pandemia decorrente do coronavírus, quando um médico, radical e negacionista, se recusou a usar máscara para atender uma paciente, segundo foi noticiado à época, seguramente por estar contaminado pela própria ignorância, alimentada por falsas notícias.
A verdade é que está insuportável viver num mundo povoado de radicais, pouco importando se de direita ou de esquerda, porque esses são os mais suscetíveis de veicularem mentiras pelas redes sociais, não para esclarecer ou orientar, mas para confundir mesmo.
É preciso, no entanto, sem mais demora, abrir espaço à contemporização, à concórdia, à compreensão, à empatia, às ações altruístas e, sobretudo, à racionalidade, num momento tão difícil de nossas vidas.
É isso.
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