Pagando promessa para São Longuinho

LUIZ THADEU NUNES E SILVA
Engenheiro Agrônomo, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.
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Nos anos 90, enquanto trabalhava como funcionário público, tive um colega metódico, mas atrapalhado. Bem mais velho que eu, ele não tinha familiaridade com o celular que ainda estávamos descobrindo como funcionava. Os aparelhos eram enormes, chamados de “tijolão”, bem diferentes dos que temos hoje, que têm mais tecnologia que a Apollo 11, segundo a Nasa.
Em uma tarde, enquanto tomava seu café, o celular tocou. Atarantado, ele levou a xícara de café ao ouvido, queimando a orelha e arrancando gargalhadas dos demais na sala.
Narro essa história porque esta semana, no café da manhã, tirei os tênis e os coloquei na cadeira ao lado. Na hora de guardar leite e manteiga na geladeira, peguei os tênis e por pouco não os guardei no refrigerador. Como moro sozinho, ri de mim mesmo. A velhice nos igualou.
Com a mente cansada, levanto para pegar o carregador do celular e esqueço o que procuro. Volto e não sei onde coloquei o aparelho. Dizem que é normal da idade.
Dentro de poucos dias, embarco para o Velho Mundo, em um voo inaugural da TAP de São Luís para Lisboa. Há dias, sinto falta do passaporte e intensifiquei a procura pelo documento. Procurei em todos os lugares possíveis: gavetas, armários, guarda-roupa, embaixo da cama. Aumentei a área de procura, fui para outro quarto, mas nada. Cheguei na sala, retirei o sofá do lugar, revirei tapetes, mas nada.
Na cozinha, até o forno do fogão não escapou da varredura. Quase à beira do desespero, recorri a ao amigo Ivan Zanella e ao meu filho Frederico, ambos sugeriram que eu fosse à Polícia Federal (PF) solicitar um passaporte emergencial. Dirigi-me à superintendência da PF, onde havia tirado o passaporte anterior. Como tudo está em constante mudança, o departamento de expedição de passaporte havia sido transferido para um shopping center.
Ao chegar à PF no shopping, descobri que precisava de um agendamento. Após breve conversa, consegui ser atendido por uma jovem que tentou me ajudar, após eu explicar que havia perdido meu passaporte e que minha viagem estava próxima.
“O senhor preencheu o questionário online?”, perguntou.
“Não”, respondi.
“O senhor precisa preencher o formulário e pagar a taxa”, explicou-me.
Verifiquei minha conexão de internet, que, para variar, não era suficiente para preencher o formulário. Liguei para Frederico, que mora em Brasília, e contei minha angústia. Ele acessou o site da PF, preencheu o formulário, mas não conseguiu concluí-lo devido a algum problema técnico.
Decidi ficar mais um tempo na PF, antes de voltar para casa e retomar minha busca pelo passaporte. Revirei tudo novamente, como se uma força tarefa da PF tivesse entrado minha casa em busca de algo irregular.
Liguei para algumas amigas católicas, que me aconselharam a rezar para São Longuinho e prometer dar alguns pulinhos, como pagamento pela graça alcançada.
São Longuinho, segundo a crença popular, é conhecido por ajudar a encontrar objetos perdidos. Diz a tradição que basta pedir a ele e prometer uma oferenda para encontrar o que sumiu. Lá estava eu, de olhos fechados, rogando a São Longuinho para me ajudar. Fui dormir na madrugada, mas nada. Levantei cedo, tomei café e fiz outra rodada de orações. Decidi procurar nas mochilas, incluindo algumas que não usava há tempo.
Para minha alegria, encontrei o passaporte em uma mochila pendurada em um cabideiro. Fiquei feliz e grato, sentindo-me devedor de São Longuinho. Segundo a tradição cristã, ele era o centurião romano encarregado de vigiar a crucificação de Jesus Cristo. Para ter certeza da morte de Jesus, ele perfurou o lado do corpo dele com uma lança chamada longinus, palavra em latim que originou o nome de São Longuinho.
Como promessa tem que ser paga, pulei não três vezes, mas trinta.
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