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Pelos umbrais do Prado: Memória, letras e o aspirantado de 1987

Há viagens que não se medem apenas em quilômetros rodados, mas no calado profundo que deixam na alma. Em 28 de dezembro de 1984, quando deixei minha São Luís natal e atravessei os portões da Academia de Polícia Militar de Minas Gerais, no tradicional bairro do Prado, em Belo Horizonte, eu não sabia que estava pisando no solo sagrado onde se forjaria não apenas o oficial, mas o homem público, o cidadão e o eterno guardião da caserna.

A PMMG, herdeira da altivez do Alferes Tiradentes e guardiã de raízes que remontam à Vila Rica colonial, impunha-se pelo respeito. Ali desembarcamos rapazes de todos os quadrantes do Brasil: Alagoas, Amazonas, Ceará, Mato Grosso, Sergipe e, representando com orgulho a Polícia Militar do Maranhão, eu e meu camarada Ronaldo Campos. É verdade que nos chamavam carinhosamente de “estrangeiros” pelos corredores da APMMG. Mas a farda e o ideal comum logo dissolviam qualquer fronteira geográfica.

O CADINHO DA CASERNA E A CONVIVÊNCIA NOS ALOJAMENTOS

A vida de cadete é uma verdadeira fornalha. Ensina-nos a suportar o inóspito, a marchar sob sol ou chuva implacável, a compreender a dimensão exata do sacrifício e do espírito de corpo. Nos alojamentos e nas manobras, o estresse das instruções táticas e a rigidez da disciplina militar eram temperados pelo calor humano da convivência fraterna. Compartilhávamos sonhos, saudades dos estados de origem, agruras e risos abafados. Era a vivência em situações adversas que forjava a têmpera do profissional de segurança pública, preparado para cumprir o seu mister mesmo com o sacrifício da própria vida.

Entre uma formatura e outra, a irmandade de turma se consolidava. Ali aprendemos os vieses operacionais e administrativos que sustentariam nossa permanência na caserna, entendendo que a defesa da sociedade contra a criminalidade exigia mais do que técnica: exigia confiança incondicional no companheiro ao lado.

A ESPADA E A PENA: O ESPADIM E A REVISTA DA TURMA

Mesmo sob o peso da rotina extenuante e dos desafios de ser um “estrangeiro” nas alterosas mineiras, a paixão pelas letras e pela cultura encontrou frestas para vicejar. A mente de um militar que cultiva a arte não se contenta com a monotonia do quartel.

Foi nesse espírito que, juntamente com os companheiros de turma, canalizamos nossas energias para além da instrução militar. Desafiei o relógio e as barreiras logísticas para ressuscitar o histórico jornal O Espadim, do Diretório Acadêmico Euclides da Cunha da APMMG, dando voz aos anseios, crônicas e reflexões dos Cadetes. Como coroamento desse esforço intelectual coletivo, conseguimos entregar no dia da nossa formatura, 10 de outubro de 1987, 500 exemplares da Revista Comemorativa da Turma de Aspirantes de 1987 a todos os presentes. Ali, entre o tinir do aço e o sussurro da pena, desenhava-se o destino que mais tarde me conduziria às letras e às Academias.

O BRINDE AO TEMPO E À MEMÓRIA

O tempo passa, inexorável. Nem todos os companheiros de farda chegaram ao coronelato; pior, nem todos continuam caminhando entre nós. Alguns já responderam à chamada no QG celestial, tendo suas carreiras e vidas interrompidas no cumprimento do dever policial ou após a merecida transferência para a reserva remunerada.

Contudo, ao celebrar as décadas que nos distanciam daquele dezembro de 1984, o que sobressai não é a ausência, mas a permanência. Permanecem as gargalhadas nos corredores do Prado, o orgulho de pertencer a uma estirpe de homens de honra e a certeza de que, nos umbrais da memória, seremos sempre os jovens cadetes de 1987.

Volto à Belo Horizonte, para junto com os amigos nos reunirmos nesse 10 de outubro em Moeda-MG, na propriedade de um de nossos amigos daquela gloriosa turma, e já com a proposta de que as areias brancas e finas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses sejam o tapete que pisaremos para comemorar as nossas bodas de esmeralda, simbolizando com a cor, a esperança, a renovação, a fidelidade, o equilíbrio e a solidez de amizades que durarão para sempre.

Brindemos à vida, às amizades que o tempo não consome e à eterna vocação de servir.

CEL. PMMA VETERANO CARLOS FURTADO

Integrante da Turma de Aspirantes 1987, da APMMG

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