Balanço e perspectivas: A 19ª Felis e o desafio de transformar feira em política permanente de leitura

Comissão organizadora do estande da Falma, na 19ª Felis: Inaldo Lisboa, César Brito, Carlos Furtado e Joaquim Gomes
Encerrada no final de setembro, a 19ª Feira do Livro de São Luís (Felis) deixou um legado de intensa movimentação cultural na Praça Maria Aragão, consolidando-se como um dos principais pontos de encontro entre literatura, educação e sociedade no Maranhão. Mais do que um espaço de comercialização de obras, o evento reafirmou seu papel como polo de diálogo e formação cidadã.
Sob a avaliação de lideranças culturais e acadêmicas, a edição deste ano destacou-se pela diversidade da programação, que reuniu autores maranhenses, nacionais e estrangeiros, além de dar forte ênfase à memória literária do estado. A escolha de Humberto de Campos como patrono, somada às homenagens a Antônio Lobo e Mata Roma, estabeleceu uma ponte fecunda entre o legado clássico e a produção contemporânea.
PROTAGONISMO DAS ACADEMIAS E A FORÇA DA FALMA
Um dos pontos altos desta edição foi a atuação institucional da Federação das Academias de Letras do Maranhão (Falma) e das diversas academias municipais. O estande coletivo funcionou como um ponto de convergência para lançamentos, debates e encontros entre escritores de várias regiões do Estado, evidenciando a capilaridade da literatura maranhense.
A programação também foi marcada pelo inspirado bate-papo “Literatura Maranhense em Sala de Aula”, realizado por sugestão da presidente da Academia de Letras de São José de Ribamar (ACLSJR), Adriana de Jesus S. Silva; e coordenado pelo jornalista Marcus Saldanha. Ao lado dos professores doutores Dino Cavalcante e José Neres, o painel resgatou a trajetória das letras locais desde a “Atenas Brasileira” até a fundação da Academia Maranhense de Letras, debatendo os gargalos da formação escolar. Enquanto Saldanha e Cavalcante advogaram pela inserção urgente de autores maranhenses no cotidiano pedagógico, inclusive propondo que 20% dos recursos de vales-livros sejam direcionados à produção local, José Neres fustigou o desinteresse institucional e o paradoxo de se valorizar manifestações estrangeiras em detrimento de marcos nacionais como os 50 anos do Poema Sujo, de Ferreira Gullar.
A Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam) destacou-se com uma programação especial. No dia 24 de setembro, o espaço abrigou a palestra “Vida e Obra de Carlos Alberto Salim Duailibe”, ministrada pelo acadêmico James Ribeiro Silva dentro do tradicional Ciclo Anual de Palestras “Elogio ao Patrono da Academia”. O evento contou com expressivo público e a presença de autoridades ilustres, como o presidente do Tribunal de Justiça do Maranhão e o coronel do Exército Brasileiro, Alberto Furtado Duailibe, familiar do homenageado. A iniciativa reforçou que as Academias atuam não apenas na preservação da memória, mas como agentes ativos de difusão cultural.
A programação também foi marcada por diversos lançamentos de livros, que deram concretude à presença dos escritores e à circulação da produção literária durante a feira. Entre eles, merecem destaque “Memórias de uma trajetória”, do escritor Francisco Viegas; e “AMJI e a voz de Hutukara”, da escritora Márcia Montenegro, obras que ampliaram o espaço de encontro entre autores, leitores e diferentes expressões da literatura e da cultura.
DESAFIOS E HORIZONTES PARA A 20ª EDIÇÃO
Apesar do sucesso de público e crítica, o balanço da 19ª Felis aponta para desafios estruturais e conceituais rumo à sua vigésima edição. Entre as pautas levantadas por pensadores e gestores culturais está a necessidade de repensar a infraestrutura do evento: com o crescimento contínuo da feira, a Praça Maria Aragão já demonstra limitações espaciais para abrigar com o conforto ideal a grandiosa “Cidade do Livro”.
Outro aspecto crucial é a ampliação da participação orgânica das Academias de Letras desde a fase de planejamento da programação, garantindo que a voz dos municípios maranhenses ecoe de forma ainda mais estruturada. A articulação com a educação — exemplificada pelo sucesso do programa “O Patrimônio nas Escolas” — também sinaliza o caminho para que a feira cumpra seu papel mais nobre: a formação permanente de novos leitores.
A proposta central para o futuro é ousada: fazer com que a Felis supere a condição de um grandioso evento sazonal e se converta em um eixo permanente de política pública de leitura e literatura no Maranhão. Como bem sintetiza a reflexão que marca o encerramento das análises sobre o evento, uma feira de livros de fato encerra suas atividades quando se desmontam os estandes, mas uma verdadeira política de leitura começa justamente quando as luzes da praça se apagam.
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