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O pássaro e a gaiola

OSMAR GOMES DOS SANTOS
Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís, Maranhão. É presidente da Academia Ludovicense de Letras (ALL) e membro das Academias Maranhense de Letras Jurídicas (AMLJ), da Academia Literária do Maranhão (ALMA) e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (AMCAL).

Há uma ilusão milenar de que a liberdade se mede pelo espaço físico que nos circunda. Acreditamos piamente que o prisioneiro é apenas aquele trancado entre grades de ferro, sob o olhar vigilante de carcereiros de carne e osso, enquanto o homem livre é o que caminha sob o sol sem correntes nos pés. Contudo, nas profundezas da condição humana, existe uma simbiose muito mais sutil, silenciosa e perturbadora: chega um momento em que o pássaro e a gaiola deixam de ser dois elementos distintos para se fundirem em uma única essência.

Pensemos naqueles que colecionam muros invisíveis no cotidiano. Não carregam ferrolhos aparentes nos pulsos, mas andam com os ombros curvados sob o peso de dogmas irrevogáveis, culpas herdadas e do medo crônico do julgamento alheio. Para estes, o mundo exterior é apenas uma extensão do calabouço interno. Se abrirmos a porta da cela, se lhes concedermos o mais amplo e irrestrito passe livre, eles não voam. Pelo contrário, recuam e acuam-se no canto mais escuro, aterrorizados com a imensidão vazia e sem balizas do horizonte. A gaiola moldou-lhes as asas de tal forma que o voo lhes parece não uma conquista, mas uma ameaça mortal, um abismo insuportável onde a gravidade da rotina já não os protege.

O confinamento, afinal, tem suas comodidades perversas. Ele oferece a certeza do teto, a previsibilidade do espaço e a desculpa perfeita para nunca tentar o extraordinário. Afinal, para que arriscar o desconhecido se o sofrimento conhecido já nos é tão familiar?

Por outro lado, há quem viva sob a custódia das ambições desmedidas e da necessidade incessante de validação. Tornam-se guardiões da sua própria prisão ao construírem palácios de exigências inalcançáveis, onde o sucesso é a tranca e a aprovação dos outros é o vigia de plantão. Nesse cenário, o pássaro canta — não por alegria genuína, mas por um desespero performático —, acreditando ingenuamente que o som melodioso de sua opressão é o hino de sua liberdade. Tornam-se reféns de si mesmos, escravos de uma gaiola de ouro cujas portas sequer possuem fechaduras, mas que continuam fechadas porque o ego teme a exposição da simplicidade.

A grande tragédia — e, paradoxalmente, a grande revelação — reside em percebermos que a nossa estrutura limitante é, muitas vezes, a única identidade que reconhecemos em nós mesmos. Retirar a gaiola de quem já se fundiu a ela é como arrancar-lhe a pele. É por isso que tantas pessoas preferem a segurança dolorosa de um emprego que as consome, de um relacionamento que as anula ou de crenças que as sufocam, a arriscar a vertigem de se reinventarem no descampado da vida.

Enquanto continuarmos a buscar chaves apenas para portas externas, ignoraremos o trabalho mais urgente e difícil: examinar de que metal invisível fizemos a nossa morada. No fim das contas, a alma que teme a imensidão acaba por domesticar os seus limites, transformando cada pluma em grade, cada sonho em miragem e cada batida de coração no eco solitário de um cárcere que, no fundo, escolheu habitar por medo de voar.

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