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Verdade absoluta

OSMAR GOMES DOS SANTOS
Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís, Maranhão. É presidente da Academia Ludovicense de Letras (ALL) e membro das Academias Maranhense de Letras Jurídicas (AMLJ), da Academia Literária do Maranhão (ALMA) e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (AMCAL).

A busca por uma verdade absoluta é o passatempo favorito de quem prefere o conforto de uma resposta pronta ao incômodo de uma boa pergunta. Prefere a fórmula definitiva, o dogma inabalável, o mapa com a cruz vermelha marcando onde a realidade finalmente deixa de ser incerta.

O problema é que, no processo de pavimentar esse caminho, acaba-se por atropelar a própria complexidade existencial.

A caminhada em direção ao que se supõe ser a verdade irrefutável costuma seguir uma trilha bastante conhecida. Começa com a necessidade humana de controle. Em um universo vasto, caos e aleatoriedade geram instabilidade. Para combater esse desamparo, erguem-se as grandes certezas. Seja pela via do rigor científico levado ao extremo do cientificismo, seja pela via da fé dogmática que prefere a cegueira à dúvida, ou pela via moderna dos algoritmos que nos devolvem em eco exatamente o que queremos ouvir, o objetivo é sempre o mesmo: encontrar um ponto firme onde possamos fincar a nossa bandeira e declarar que o debate acabou.

A crítica central a tudo isso é que a obsessão por uma verdade absoluta quase sempre exige a eliminação das nuances. Para que algo seja puramente absoluto, tudo o que é contraditório, subjetivo ou em transformação precisa ser limado. A verdade, quando vira um monumento intocável, perde sua utilidade prática e vira apenas uma ferramenta de autoridade. Quem clama ser o detentor da verdade absoluta raramente quer educar; quer, em geral, encerrar a conversa.

Ao olharmos para a história, os caminhos pavimentados com convicções inabaláveis foram, muitas vezes, os mais destrutivos. A certeza absoluta não deixa espaço para a empatia, para o erro saudável ou para a revisão de rota. Quando se acredita ter atingido o ponto culminante da realidade, qualquer discordância deixa de ser uma perspectiva diferente para se tornar um erro a ser corrigido ou uma ameaça a ser eliminada.

Talvez o grande paradoxo do conhecimento humano seja entender que o único caminho honesto em direção à verdade é aquele que aceita a sua própria limitação. A verdade não é um destino estático onde se chega e se senta para descansar; é mais parecido com um horizonte que se move à medida que caminhamos. Buscar a verdade exige a coragem de conviver com a dúvida, de mudar de ideia quando os fatos mudam e de aceitar que nossas certezas de hoje podem ser os equívocos de amanhã.

Procurar caminhos para a verdade é um exercício nobre e necessário para a ciência, a filosofia e a vida cotidiana. O perigo surge quando confundimos o processo de busca com a posse definitiva do resultado. Ao sacrificar a dúvida em nome da segurança de um absoluto, não encontramos a verdade — apenas construímos uma prisão confortável.

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