Sobrevivente

OSMAR GOMES DOS SANTOS
Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís, Maranhão. É presidente da Academia Ludovicense de Letras (ALL) e membro das Academias Maranhense de Letras Jurídicas (AMLJ), da Academia Literária do Maranhão (ALMA) e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (AMCAL).
O cheiro do mangue não sai com sabão. Ele se prende à pele, entranha-se debaixo das unhas e vira memória.
Na infância, o mundo do menino se resumia ao som estalado do machado quebrando a casca dura do coco-babaçu. Cada batida certeira da mãe, Dona Maria, era a promessa escassa do almoço. Mais tarde, vieram as tábuas tortas da palafita, onde a maré subia sem pedir licença e molhava o assoalho onde ele dormia. Vieram o sol ardendo nas costas enquanto limpava o suor de vigiar carros por trocados na Praia da Ponta d’Areia e a poeira do cimento no lombo, como ajudante de pedreiro. A luta e a fome eram as únicas certezas que pareciam lhe pertencer.
Contudo, havia o papel. Folhas de jornal amassadas que achava na rua, livros sem capa resgatados do lixo. Sob a luz fraca de uma vela na palafita, enquanto a água escura da maré sussurrava lá fora, o menino devorava palavras. Elas eram o único horizonte que não tinha cheiro de lama.
A virada não veio como um milagre, mas como uma guerra silenciosa travada contra o cansaço. Era o estudo no transporte público, as horas roubadas ao sono, a marmita fria comida nos degraus da biblioteca pública.
A mão que calejou no cabo do machado aprendeu a assinar petições como advogado, a dar aulas como professor e a ostentar o distintivo de delegado. Depois, o terno substituiu a roupa suja de cal quando tomou posse como secretário-chefe do gabinete, depois como procurador legislativo e, finalmente, ao vestir a toga de magistrado.
Hoje, sentado no gabinete silencioso de sua unidade, cercado por móveis de madeira nobre e códigos encadernados em couro, o juiz olha para as próprias mãos. Elas ainda guardam, nas linhas mais profundas, a marca invisível de quem quebrou coco para sobreviver. Ele sabe exatamente de onde veio: do chão da palafita, onde a vida parecia não ter valor. E sabe para onde vai: para qualquer lugar onde seu olhar firme possa garantir que a Justiça não se esqueça daqueles que ainda vivem no mangue.
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