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A Felipaço

CEL. CARLOS FURTADO*

Há sonhos que começam modestos, quase silenciosos, mas que, à medida que encontram pessoas dispostas a realizá-los, ganham corpo, entusiasmo e esperança. Foi assim que nasceu, em Paço do Lumiar, a ideia de uma Feira de Livros, a Felipaço.

Não se tratava apenas de montar tendas, organizar estandes ou preencher uma programação. Tratava-se de criar um espaço para o encontro entre livros e leitores, escritores e estudantes, professores e famílias, artistas e comunidade. Tratava-se, sobretudo, de colocar a literatura luminense no lugar que lhe pertence.

O movimento da Academia de Letras de Paço do Lumiar (ALPL) começou ainda na primeira semana de maio como uma semente, a 1ª Amostra Literária. Houve uma tentativa de audiência com o prefeito, inicialmente marcada para 12 de maio. Depois, com a intervenção dos vereadores Carmem Aroso e Ribamar Neto, uma nova audiência foi realizada em 29 de julho, no Centro Administrativo Municipal.

Naquela ocasião, a esperança ganhou contornos concretos. O prefeito recebeu os representantes da Academia, mostrou-se receptivo à proposta e manifestou disposição para oferecer os recursos financeiros e o apoio logístico necessários à realização da I Feira de Livros. Pediu apenas que o projeto fosse apresentado até 7 de agosto e que a própria ALPL coordenasse o evento. E a Academia cumpriu.

Na oportunidade, e pela primeira vez diante do mandatário municipal em audiência oficial, foram apresentados outros projetos que há muito aguardavam: a publicação de 3.000 exemplares de uma revista sobre a história de Paço do Lumiar; o projeto Leitura na Praça, idealizado e coordenado pela confreira Karla Maria; e a publicação do livro História de Paço do Lumiar-MA, destinado à distribuição na rede educacional do município.

A receptividade foi tamanha que, naquele encontro, surgiu até a possibilidade de construção da sede própria da Academia, fato que o prefeito divulgou aos quatro ventos em uma postagem no Instagram, como ele mesmo gosta de fazer. Era, portanto, um cenário de pleno entusiasmo.

Um detalhe que chama a atenção é a existência da Lei nº 562, de 18 de dezembro de 2013, que autoriza a instituição da Feira do Livro de Paço do Lumiar, mas que, infelizmente, nunca havia sido aplicada. Portanto, a empolgação tomou conta daqueles que operam na cultura luminense.

Mas, como frequentemente acontece com os sonhos coletivos, entre a intenção e a realidade existem caminhos que nem sempre são previsíveis. No dia 18 de agosto, às 11 horas, representantes da ALPL foram recebidos no gabinete do Secretário de Articulação Política. Note-se que nem o prefeito propiciou a atenção que inicialmente ofertara, e a informação apresentada naquele encontro modificou substancialmente o rumo da história: a Feira não seria mais realizada em agosto, como prevê a legislação. Ficaria para novembro e passaria a ser coordenada pela Secretaria Municipal de Educação, e não mais pela Academia de Letras de Paço do Lumiar, como foi afirmado pelo gestor municipal.

A justificativa apresentada foi a de que agosto estaria muito próximo e que a Secretaria já possuía, desde o início do ano, um planejamento para uma feira destinada aos estudantes da rede municipal, professores e familiares. Nesse caso, os escritores e membros da ALPL, em tese, já não tinham mais importância; um robusto projeto, fruto de inúmeras reuniões entre membros efetivos e correspondentes, estava sendo absorvido pela administração sem o respeito, a consideração e a atenção devidas, como já é costume daqueles que se aproveitam das boas ideias alheias para colocar sua própria marca.

A notícia chegou como quem apaga, de repente, uma luz que já estava acesa. Não porque novembro seja um mês inadequado para os livros. Pelo contrário: qualquer mês é bem-vindo quando se abre espaço para a leitura. O problema estava na mudança de rumo depois de uma caminhada que vinha sendo construída há meses.

Ficou, então, uma pergunta pairando no ar: se havia planejamento anterior para uma feira da Secretaria, por que não houve, desde o início, a integração desse planejamento com a Academia de Letras do município?

Outra pergunta também permaneceu sem resposta satisfatória: se a proposta pretendia valorizar os escritores, poetas e artistas de Paço do Lumiar, por que a instituição literária do próprio município, com quase duas décadas de existência, não estaria naturalmente no centro dessa construção?

Não são perguntas feitas para criar conflito. São indagações que nascem da própria lógica de uma parceria verdadeira.

A ALPL havia criado uma comissão organizadora plural, reunindo representantes da Academia, da Semed, da Semjec, da Câmara Municipal e da Assessoria de Comunicação, infelizmente esses parceiros convidados não compareceram nas reuniões. Havia, portanto, um sólido caminho institucional sendo construído.

E quando faltavam apenas nove dias para a data prevista de abertura, talvez o maior obstáculo não estivesse nas tendas, nos estandes ou na programação. As tendas poderiam ser instaladas. Os expositores poderiam cuidar de seus espaços. A programação, praticamente pronta, poderia receber os ajustes necessários.

O que parece ter faltado foi tempo para que todos pudessem compreender que uma feira de livros é, antes de tudo, uma construção coletiva.

Agora, o calendário avançou. Agosto, que parecia tão próximo, tornou-se passado. Novembro passou a ser a nova promessa.

Para os luminenses, resta esperar. Para a ALPL, porém, esperar não significa permanecer parada. Porque há uma característica peculiar naqueles que vivem de livros: quando uma porta se fecha, eles procuram uma página em branco. E foi exatamente isso que aconteceu.

Diante da frustração, a Academia decidiu transformar a decepção em movimento. Em vez de abandonar o projeto, iniciou a preparação de uma nova iniciativa: a I Mostra de Livros da ALPL, prevista para 31 de outubro, em homenagem ao Dia do Escritor Luminense.

Talvez seja essa a verdadeira força de uma Academia de Letras: não depender exclusivamente de circunstâncias favoráveis para continuar escrevendo sua história.

A Feira municipal poderá acontecer em novembro. Oxalá aconteça, e que seja grandiosa, democrática e capaz de reunir estudantes, professores, escritores, poetas, artistas e leitores. Mas a história da ALPL não termina em agosto. Pelo contrário.

A Academia seguirá fazendo aquilo que sabe fazer: semear livros, cultivar leitores, preservar a memória e defender a cultura de Paço do Lumiar. Porque os sonhos literários não desaparecem quando uma data muda. Eles apenas mudam de página.

E, enquanto houver quem escreva, quem leia e quem acredite na força transformadora da cultura, a história continuará sendo escrita. Quem viver verá.

*Escritor, Acadêmico Correspondente da Academia de Letras de Paço do Lumiar (ALPL) e Vice-presidente da Federação das Academias de Letras do Maranhão (Falma).

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