Continência castrense

GUSTAVO MACHADO, delegado de Polícia Civil do Maranhão. SEBASTIAO UCHOA, advogado e delegado de Polícia Civil aposentado.
Embora o artigo publicado na edição do dia 19 de julho (domingo) ter em essência os conteúdos apresentados no presente texto, considerando a profunda leitura e contribuição com acréscimos magnânimos do colega Gustavo Machado, acerca daquele, num espectro de maior alcance em interpretação, convidei-o a republicar referido artigo em conjunto, ou seja, com sua imensa participação. Aliás, o delegado Gustavo Machado tem o dom da escrita e de análise sistêmica dos problemas nacionais e humanos, de forma encantadora. Daí, recebê-lo com mais uma publicação em conjunto, é de uma imensa satisfação e orgulho.
Poucos gestos carregam tanta carga simbólica quanto uma continência militar; e, quando um ato que parece ser um simples gesto é dirigido a certas autoridades, ele inevitavelmente desperta reflexões que vão muito além da exposição de um ritual protocolar perante o público consciente do povo brasileiro.
Falando-se sobre deferência castrense a ministros da Corte de Justiça brasileira, não haveria de ser diferente: o espanto que causa quando alguns generais saúdam autoridades que exalam flagrante fragrância de absurdos comportamentais tão bem percebidos e expostos ao longo de diversos comentários espalhados nas redes sociais e tal espanto, de pronto, traz à memória algumas teorias em torno do ato de “bater continência”, bem como, aquilo que no direito é chamado de homem médio.
Entre tantas versões para o ato militar de saudação, o de levar a mão espalmada acima dos olhos na altura da testa como ato de deferência, duas são curiosas: a primeira que diz que isto decorreria da prática da cavalaria medieval, em que cavaleiros erguiam o visor do elmo para exibir seu rosto e poder ser identificado por outro igual, demonstrando gesto de confiança, respeito e paz. Outra versão fala que decorreria isto de um gesto feito por um oficial diante de uma rainha que, quando pela monarca confrontado acerca da razão para tal, respondera: assim como tenho que proteger meus olhos ao tentar olhar para o sol, reconheço que vossa grandeza luminosa me cegaria se ousasse me voltar para vossa augusta direção, com a vista desprotegida.
Em paralelo a essa lembrança, sendo transportado aos bancos universitários, é possível recordar de professores falando do homem médio como parâmetro de interpretação de leis frente fatos e ações do indivíduo, ou seja, o Norte a balizar e temperar o julgamento de um juiz ou até mesmo de outros operadores do direito como membros do Ministério Público, Defensoria Pública ou Autoridades Policiais afins. Mas quem ou que seria esse homem médio neste nosso Brasil de hoje? Teria sido possível o príncipe Sidarta Gautama chegar à iluminação que se diz ele ter tido, tornando-se o Buda, acaso continuasse no castelo onde vivia alheio a toda sorte de miséria, à dor, à dificuldade e à insegurança as quais experimentavam quaisquer dos súditos que viviam logo além daqueles muros?
Vendo as notícias do Brasil tratando de jantares, contratos e favores, é como estar num teatro de sombras olhando apenas as silhuetas de um erotismo vulgar (pura pornografia), em que desfilam cifras de milhões, encontros festivos com modelos, bebidas e algo mais com custas beirando facilmente a R$ 100.000,00 por pessoa, estando ali nomes da nata da burocracia nacional a desfilar com seus relógios Patek Philippe, adorno que facilmente ultrapassa a casa dos R$ 400.000,00.
Vê-se tudo isso e ainda agora não se encontrou sequer uma tentativa elegante que seja para dar ares de moralidade ao ousado e duvidoso qualificativo advocatício a tais contratos, desconsiderando haver vínculo familiar com membros da Corte de Justiça Brasileira. Nem Lima Barreto, ao cunhar o termo Bruzundangas há décadas, imaginaria vir uma República testemunhar tanta ignomínia.
Perceba a questão: qual homem médio é este que porventura as autoridades responsáveis pelo Sistema de Justiça do Brasil de hoje poderiam conhecer ou ter em si valores e parâmetros para nortear a forma de enxergar os fatos, atos e leis a serem julgados e interpretados? O homem médio deles é o famigerado anfitrião da Festa dos Astronautas? Talvez, isto explique a razão de parecer que para tais, que o brasileiro comum, seja apenas um mero súdito de sorte não tão distante daquela vista por Sidarta em seus antes de ser Buda e isso explicaria muito do que se diz serem abusos institucionais ao longo das últimas décadas e como no Brasil toda aberração vai se normalizando e a vida segue como quem crê ser mais fácil passar e fingir não ver, e sem tanto se comprometer, segue como quem parafraseia com escárnio a Fernando Pessoa entoando: “navegar é preciso, viver não é preciso”!
Sidarta quando viveu na bolha de sua “corte” cercado pelo luxo e pela extravagância do poder veria nessa nata burocrática brasileira excelentes pares, mas o príncipe se rebelou e fugiu da pompa e do castelo, ousando a conhecer e experimentando as dores da plebe.
Não por menos sou assaltado pelas reflexões do advogado, jornalista e juiz aposentado do estado Maranhão, Carlos Nina, publicando no “Jornal do Maranhão” o artigo “A erosão do discernimento”, em que vaticina que o “desafio do presente não é reduzir o fluxo das telas, mas recuperar o discernimento”. E arremata: “num mundo em que um gol e um bombardeio disputam o mesmo espaço e o mesmo segundo de atenção, preservar o espanto, a sensibilidade e o senso crítico talvez seja uma das últimas formas de resistência humana”.
Assim, concluo essa epifania de gatilhos, memórias e reflexões questionando: para quem os generais batem continência diante do contexto da grave crise de referência ética institucional a assolar a democracia brasileira? Será que o brilho daquelas figuras é maior que o brio desses generais? Porque, se o for, até o pálido fulgor do vaga-lume tem mais claridade que um torrão queimado, consumido e apagado.
Talvez a mais digna continência que uma República possa receber não seja aquela prestada aos ocupantes ocasionais dos cargos, mas aquela dirigida, permanentemente, à Constituição e ao povo que confere legitimidade às instituições e leis. Para tanto, é possível convidar a orarmos para que o país encontre outros rumos, independente da doente polarização partidária em curso, que, a despeito de verbalizadas e alegadas grandes preocupações, não raras vezes transparece se importar mais com interesses pessoais em detrimento de quem pretensamente dizem representar no cenário nacional. E o amanhã, não tão distante, assim se confirmará. Oxalá nos diga o contrário, AMÉM!
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