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Quando se fecha um estande, não se fecha a Literatura

ACADÊMICO CARLOS FURTADO*

Há momentos em que um acontecimento, aparentemente, administrativo revela uma questão muito maior do que ele próprio. A negativa de um espaço físico pode parecer apenas uma decisão burocrática. Entretanto, quando esse espaço é destinado aos livros, aos escritores e às instituições que preservam a memória de um povo, o episódio ultrapassa a logística e alcança o campo dos símbolos.

Uma academia de letras não é um conjunto de cadeiras, ocupadas por vaidades. Também não é um clube reservado a escritores. Ela representa a consciência cultural de uma comunidade. Em seus arquivos, repousam memórias; em suas bibliotecas, vivem autores; em seus discursos, ecoam gerações; em seus livros, permanece a identidade de um povo.

É por isso que as academias, as universidades, os institutos históricos, a imprensa responsável, as entidades científicas e culturais não pertencem aos governos, tampouco às circunstâncias políticas. Pertencem à sociedade. São instituições permanentes, enquanto as administrações são transitórias.

Quando uma sociedade reduz os espaços destinados aos seus escritores, não diminui apenas o tamanho de um estande. Reduz, ainda que involuntariamente, as possibilidades de diálogo entre o presente e a própria história.

Os livros possuem uma singularidade que poucos objetos carregam. Eles sobrevivem aos seus autores. Continuam conversando com pessoas que sequer haviam nascido quando foram escritos. Enquanto os discursos políticos envelhecem rapidamente, a boa literatura atravessa décadas, às vezes séculos, preservando valores, denunciando injustiças, alimentando esperanças e formando consciências.

Talvez, por isso, a cultura sempre tenha despertado tanto interesse — e, não raras vezes, tanto receio — entre aqueles que exercem o poder. Governos administram o presente. A literatura forma o futuro.

A Federação das Academias de Letras do Maranhão congrega dezenas de instituições espalhadas pelo território maranhense. Nelas trabalham, quase sempre de forma voluntária, homens e mulheres que dedicam parte significativa de suas vidas à preservação da memória, ao incentivo à leitura, à pesquisa histórica, à valorização da língua portuguesa e ao estímulo de novos escritores.

Esses acadêmicos não pedem privilégios. Reivindicam reconhecimento para uma missão que beneficia toda a sociedade.

É paradoxal imaginar uma feira do livro, na qual escritores encontrem mais dificuldades para expor suas obras do que comerciantes, cuja relação com a identidade cultural maranhense é apenas circunstancial. A literatura produzida no Maranhão não deveria disputar espaço com a própria terra que lhe deu origem. Deveria ser uma de suas protagonistas.

Entretanto, convém recordar uma antiga lição da História.

Os grandes movimentos culturais jamais dependeram exclusivamente de edifícios, salões ou estandes. A Biblioteca de Alexandria desapareceu, mas o conhecimento não desapareceu com ela. Livros foram queimados ao longo dos séculos, contudo as ideias sobreviveram ao fogo. Escritores conheceram o exílio, a censura e o silêncio imposto, mas suas palavras encontraram novos leitores, em novos tempos.

As academias literárias carregam precisamente essa vocação: serem guardiãs das ideias quando as circunstâncias parecem desfavoráveis. Sua missão não termina na porta de uma feira, nem se limita ao calendário oficial de um evento. Ela prossegue nas escolas, nas bibliotecas, nas praças, nas pequenas cidades, nos saraus, nas conferências e, sobretudo, na consciência daqueles que compreendem que um povo sem memória torna-se vulnerável ao esquecimento de si mesmo.

Um estande pode ser negado.

Uma sala pode permanecer fechada.

Um orçamento pode ser reduzido.

Mas nenhuma dessas decisões consegue interditar a inteligência, impedir a criação literária ou aprisionar o pensamento humano.

As páginas continuarão sendo escritas.

Os poemas continuarão encontrando seus leitores.

Os historiadores continuarão preservando os fatos.

Os cronistas continuarão narrando o cotidiano.

E os acadêmicos continuarão acreditando que a cultura é um patrimônio demasiado valioso para depender exclusivamente da boa vontade das circunstâncias.

Talvez resida justamente aí a maior força das Academias de Letras.

Elas não existem para ocupar espaços físicos.

Existem para ocupar espaços na memória coletiva.

Porque, ao final, as feiras terminam, os pavilhões são desmontados, as administrações se sucedem e os cargos mudam de mãos.

Os livros permanecem.

E é sempre a permanência que derrota o efêmero.

Como ensinava Victor Hugo, “nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou”. As instituições culturais existem exatamente para proteger essas ideias até que o tempo lhes faça justiça. E quando isso acontece, compreendemos que um estande jamais foi capaz de medir a grandeza da literatura, porque a verdadeira morada dos livros nunca foi um pavilhão: sempre foi a consciência de um povo.

*Historiador, bacharel em Direito e escritor. Presidente da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam) e da Academia de Letras dos Militares Estaduais do Brasil e do Distrito Federal (Almebras) e vice-presidente da Federação das Academias de Letras do Maranhão (Falma).

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