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Humberto de Campos no mundo tecnológico

CEL. CARLOS FURTADO*

Quem visita o município de Humberto de Campos, no litoral norte maranhense, dificilmente, imagina que a antiga Miritiba, rebatizada em homenagem ao seu mais ilustre filho, o escritor, jornalista e acadêmico Humberto de Campos Veras, abriga hoje uma experiência inovadora que alia ciência, tecnologia, empreendedorismo e desenvolvimento social.

Após o falecimento do imortal da Academia Brasileira de Letras, em 5 de dezembro de 1934, o governo do Maranhão, por meio do Decreto Estadual nº 743, alterou o nome de Miritiba para Humberto de Campos, eternizando, na geografia maranhense, a memória de um dos maiores cronistas da literatura brasileira.

Atualmente, o município também desponta como um promissor polo de ecoturismo, valorizando suas ilhas, comunidades tradicionais e os encantadores passeios fluviais pelo Rio Periá. Entretanto há outro patrimônio que merece ser conhecido: o trabalho desenvolvido pelo professor José Maria Ramos, secretário municipal de Ciência, Tecnologia, Trabalho e Renda.

Minha primeira visita ao município ocorreu em 22 de novembro de 2022, em companhia do professor Arnaldo de Souza Ribeiro, da Universidade de Itaúna (MG). A segunda aconteceu em 20 de julho de 2026, quando retornei na condição de pesquisador, acompanhado pelos professores Marco Antônio Vilela e Norma Brandão, de Itabirito (MG), todos estudiosos da vida e da obra de Humberto de Campos. Nas duas oportunidades, fomos recebidos pelo professor José Maria, que nos apresentou uma realidade verdadeiramente surpreendente.

Conhecemos seus laboratórios didáticos alternativos de Ciência, Tecnologia e Robótica, espaços concebidos para despertar nos jovens o interesse pela pesquisa, pela inovação e pelo desenvolvimento tecnológico. Visitamos também oficinas onde são produzidos equipamentos destinados à apicultura, máquinas para extração da carne de caranguejo e diversos produtos obtidos a partir do reaproveitamento de materiais recicláveis.

Entre as iniciativas mais criativas destaca-se a reutilização de garrafas PET. Graças à elevada resistência desse material, recipientes que antes eram descartados passam a ser transformados em estruturas úteis para as comunidades, servindo na confecção de redes de pesca, tanques-rede destinados à piscicultura, currais e outras aplicações que fortalecem as atividades produtivas locais. Trata-se de um exemplo notável de economia circular, no qual ciência, tecnologia e consciência ambiental caminham lado a lado, convertendo resíduos em oportunidades de trabalho, geração de renda e preservação da natureza.

A Secretaria também incentiva oficinas de artesanato utilizando películas de buriti, iniciativa que representa a aplicação prática dos conhecimentos adquiridos em diversos cursos superiores hoje oferecidos no próprio município.

Essa ampla rede de formação conta com a participação efetiva do Sistema S — Sebrae, Sest Senat, Sesc, Senai e Senar — além da Universidade Federal do Maranhão (Ufma), da Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e do Instituto Federal do Maranhão (Ifma), formando um verdadeiro ecossistema de qualificação profissional, inovação e desenvolvimento social.

O que presenciamos foi um trabalho genuinamente empreendedor, sustentado pela ciência e pela tecnologia, conduzido por uma equipe pequena, extremamente comprometida e criativa, que, muitas vezes, supera as limitações impostas pela escassez de recursos públicos.

De forma bem-humorada, o professor José Maria costuma dizer que sua equipe pertence ao partido “Te Vira”. A brincadeira simboliza a capacidade de improvisar, criar soluções e vencer obstáculos com dedicação, espírito coletivo e criatividade. O humor, nesse caso, revela uma importante lição de liderança, perseverança e resiliência.

Não resta dúvida de que, caso houvesse um apoio ainda mais consistente do poder público municipal, os resultados alcançados poderiam ser mais expressivos. Ainda assim, os indicadores atuais já são dignos de celebração.

Algumas comunidades rurais já produzem mais de seis toneladas anuais de mel orgânico, atualmente em processo de regularização no Ministério da Agricultura e Pecuária. O artesanato produzido com fibras e películas de buriti começa a conquistar espaço em lojas especializadas, contando com o apoio técnico e produtivo do Senar.

Talvez o resultado mais impressionante esteja na educação. Ao longo da última década, mais de mil pessoas concluíram cursos superiores no próprio município, enquanto cerca de seiscentos estudantes encontram-se atualmente em processo de formação.

Em uma cidade conhecida nacionalmente pelo legado literário de Humberto de Campos, a ciência, a tecnologia e a inovação escrevem agora um novo capítulo de sua história. É uma demonstração inequívoca de que o conhecimento continua sendo o instrumento mais poderoso para transformar realidades, gerar oportunidades e construir um futuro mais próspero para as novas gerações.

Se Humberto de Campos eternizou sua terra natal pela força da palavra escrita, homens como o professor José Maria Ramos demonstram que a inovação também pode ser uma forma de literatura: aquela escrita diariamente com criatividade, trabalho, pesquisa e compromisso com o desenvolvimento humano.

Entre os projetos mais ousados idealizados pelo secretário municipal José Maria Ramos, destaca-se a criação da Casa da Ciência, um espaço destinado à popularização do conhecimento científico, da tecnologia e da inovação. A iniciativa pretende reunir laboratórios, ambientes de experimentação, oficinas, exposições e atividades voltadas à formação de crianças, jovens e adultos, consolidando-se como um centro permanente de difusão científica, incentivo à pesquisa e integração entre escolas, universidades e a comunidade.

Mais do que preservar a memória de um dos maiores escritores brasileiros, Humberto de Campos prova que é possível honrar esse legado construindo um futuro alicerçado no conhecimento. Ali, a palavra inspirou gerações; hoje, a ciência e a tecnologia transformam vidas. Essa talvez seja a mais bela homenagem que a terra de Humberto de Campos poderia prestar ao seu filho mais ilustre.

Durante a nossa visita, na qualidade de vice-presidente da Federação das Academias de Letras do Maranhão (Falma), comprometi-me a prestar todo o apoio institucional necessário para a criação e fundação da Academia Humberto-Campense de Letras, Ciências e Artes (AHLCA). A ideia é que a futura instituição terá por missão promover o desenvolvimento científico, artístico e literário do município, preservar sua memória histórica e valorizar seus escritores, pesquisadores, cientistas, artistas e demais produtores do conhecimento, consolidando-se como um importante centro de difusão cultural e científica.

A criação da AHLCA representará a união simbólica entre o legado literário de Humberto de Campos e a vocação inovadora que hoje desponta no município. Ao reunir literatura, ciência, artes e tecnologia em um mesmo espaço institucional, a Academia contribuirá para fortalecer a identidade cultural local, estimular a produção intelectual e incentivar novas pesquisas, tornando-se mais um instrumento de desenvolvimento social.

A experiência vivenciada em Humberto de Campos demonstra que o verdadeiro desenvolvimento nasce quando educação, ciência, cultura e inovação caminham juntas. Assim, a terra que um dia projetou o Brasil por meio da genialidade de Humberto de Campos Veras continua escrevendo sua história, agora pelas mãos de educadores, pesquisadores, empreendedores e cidadãos comprometidos com a transformação da realidade. O passado inspira; o presente realiza; e o futuro, certamente, será construído pelo conhecimento.

*Coronel veterano da PMMA. Historiador, presidente da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam); da Academia de Letras dos Militares Estaduais do Brasil e do Distrito Federal (Almebras); vice-presidente da Federação das Academias de Letras do Maranhão (Falma).

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