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A patologia da ambição (Parte final)

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA DE ALMEIDA
Membro do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão
E-mail: [email protected]

Com esse ensaio encerro a trilogia da ambição em sua feição patológica.

Para os que não tiveram acesso aos ensaios anteriores, no primeiro texto fiz reflexões sobre a ambição material e, no segundo, sobre a ambição pelo poder, apontando os efeitos deletérios de uma e de outra, deixando consignado que, em face de ambas, o homem se revela e, não raro, pode perder a direção.

Nas reflexões com as quais encerro, agora, a trilogia, discorro, mais uma vez, sobre a patologia da ambição, ainda sob a perspectiva do poder, mas à luz da literatura.

Pois bem. Com a tragédia de Sófocles, composta por volta de 442 a.C, faço a primeira ilustração, lembrando que Antígona era filha de Édipo e irmã de Etéocles e Polinices, os quais disputavam o trono outrora pertencente ao pai; disputa que, inicialmente, culminou num acordo segundo o qual ambos se revezariam no poder, cabendo a cada um reinar por um ano, começando por Etéocles. Contudo, como sói ocorrer com os que têm sede incontrolável de poder, transcorrido o primeiro ano, Etéocles recusou-se a ceder o trono ao irmão, dando início a um trágico conflito, do qual resultou, para sintetizar, a morte de ambos. tendo como pano de fundo, como dito, a ambição pelo poder.

O que se conclui da tragédia de Sófocles é que o homem, estando no poder, revela-se em sua inteireza e, muitas vezes, tem dificuldades de honrar a palavra empenhada, pois, pelo poder, tudo é capaz, até matar ou morrer. Na tragédia, a ambição desmedida dos irmãos – especialmente de Etéocles, que passa de herdeiro legítimo a tirano, quebrando a própria palavra –, de tão incontrolável, conduziu-os à morte.

À guisa de ilustração, e ainda sob a perspectiva do que o poder é capaz de fazer com os patologicamente ambiciosos, reflito, a seguir, sobre o romance satírico A Revolução dos Bichos, de George Orwel, obra que faz contundente crítica ao totalitarismo e à degeneração dos ideais revolucionários, podendo ser analisada, igualmente, sob a ótica do que o homem – no romance, os porcos –, é capaz de fazer estando no poder.

O livro, como sabido, conta a história de uma fazenda em que os animais, insatisfeitos com o tratamento que recebem dos humanos, resolvem rebelar-se, liderados pelos porcos. Inicialmente, os líderes revolucionários pregam ideais de igualdade e liberdade, os quais deveriam reger a convivência entre os animais. Entretanto, com o passar do tempo, traem os próprios ideais que juraram defender.

Nessa fábula moderna, há traições até mesmo entre os suínos e os demais bichos, como acontece no mundo dos homens. Aos poucos, os porcos, líderes do movimento revolucionário, passam a agir exatamente como os antigos opressores, tratando os demais animais de forma despótica, contrariando tudo aquilo que antes juraram combater.

O que se infere da tragédia de Sófocles e do romance satírico de Orwel é que, pelo poder e estando no poder, quando a ambição assume contornos patológicos, irmão desconhece irmão, pai e filho tornam-se inimigos, amigos traem amigos, ante a incapacidade de honrar a palavra empenhada e de respeitar a história construída ao lado do outro, a reafirmar, enfim, que o poder corrompe e degenera.

O que Sófocles e George Orwel ensinam, com a tragédia e com o romance, respectivamente, é que o homem, uma vez aboletado no poder, revela a sua verdadeira essência e que o poder corrompe até mesmo aqueles que começaram movidos por intenções aparentemente boas, como se deu com os porcos que lideraram a revolução, sob genuínos ideais de igualdade e libertação, e com os irmãos Etéocles e Polinices, da tragédia de Sófocles.

Na tragédia, importa lembrar, a história de Etéocles e Polinices funciona como espelho das disputas políticas que destroem nações, desfazem amizades e desprezam sentimentos em face do ego desmedido dos líderes. No romance, a lição que se extrai é a de que o poder tende, inevitavelmente, a corromper.

Por tudo isso, devemos ter extremo cuidado com as pessoas que alçamos ao poder, porque há quem, movido por propensões ditatoriais, uma vez ungido e, muitas vezes, cercado de fanáticos e maus conselheiros, sinta-se tentado a perpetuar-se no mando, olvidando-se dos limites que a democracia impõe.

É isso.

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