A patologia da ambição (Parte II)

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA DE ALMEIDA
Membro do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão
E-mail: [email protected]
Vou falar, agora, de ambição pelo poder. E, com razoável certeza, ao final destas reflexões, é bem provável que você identifique alguém muito próximo que deseja o poder a qualquer custo, cuja característica, na busca dos seus objetivos, é a simpatia que esconde oportunismo; o sorriso maroto que revela desfaçatez; os mimos deixados nas portarias das residências dos potenciais eleitores para se mostrar solícito; e o tapinha nas costas para enganar os tolos, tudo isso usado como arma de conquista.
Vamos refletir, pois, sobre o ser humano que não tem limites quando o poder está em jogo, convindo anotar que Aristóteles já observava, a propósito, que o homem, sendo um animal político, tende naturalmente a organizar-se em sociedade e a disputar posição de influência, daí por que a ambição pelo poder não é, necessariamente, ruim, mas em sua forma moderada. Sob essa perspectiva, ela pode impulsionar o homem a grandes realizações. O problema surge quando se torna desmedida, porque, nesse caso, o ser humano age sem limites; e, claro, quem não se impõe limites para conquista do poder, tende a abusar desse mesmo poder – e a história está repleta de exemplos, para não me deixar mentir.
Pessoas sôfregas pelo poder buscam entrar para a história a qualquer custo, recorrendo, se necessário, a atalhos para afastar quem se interpõe em seu caminho. Nesse sentido, almejam construir a sua história, sob qualquer condição, valendo-se de quaisquer meios. Nesse afã, dizem o que não fazem e fazem o que não dizem. Prometem o que não pretendem honrar; não são fiéis a ninguém, muito menos a princípios. O que importa é ascender, ainda que, para isso, tenham que dissimular e assumir compromissos que não vão honrar. Para esse tipo o de gente, tudo é pouco; o céu é o limite, portanto. Nada as satisfaz porque sua ambição é patológica. Podem ter dinheiro, podem ter família, podem viver rodeado de amigos, mas nunca estão satisfeitas, porque elas almejam mesmo é o poder. Nesse ímpeto, vão “comendo pelas bordas”, como se diz popularmente. Elas podem até ter o que a maioria das pessoas não têm. Ainda assim não são felizes, porque elas almejam mesmo é o poder. O poder é sua obsessão. Isso não é exagero; é diagnóstico.
Esse tipo de gente, que se faz de manso e cordato para alcançar seus objetivos, confunde ambição pelo poder com sua própria identidade. E não está nem aí se não está preparado para o poder; acha que, uma vez investido nele, tudo se resolve. Para esse tipo de gente, o poder não é meio — é fim. Não é ferramenta — é identidade. Tire o poder dele, ou lhe negue o poder, ou lhe dificulte o poder, e ele se revela.
Esse homem, ambicioso, diz uma coisa e faz outra. Jura fidelidade, mas é desleal. Jura respeitar a história dos outros, mas a espezinha. E não perde o sono por isso. Chama essa conduta de estratégia, de pragmatismo. Entende que é assim que o mundo funciona, o qual ele e seus iguais ajudaram a construir em benefício próprio. Ele negocia com a consciência como quem negocia com fornecedores: busca o poder com a obsessão sem limites. Ética, na disputa pelo poder, quando lhe ocorre, é obstáculo; lealdade, quando convém, é moeda; amizade é somente rede de contatos.
O mais perturbador não é saber do que ele é capaz para alcançar o poder. O que espanta é a normalidade com que as pessoas encaram esse tipo de gente.
O ambicioso patológico, de quem trato aqui, se parece com todos nós. Ele dorme bem. Come bem. Frequenta igreja, às vezes. Faz doação quando há plateia. Tem família, tem foto na parede, tem discurso pronto sobre valores e meritocracia. Mas, quando está em jogo o poder, ele se revela, se mostra como realmente é: alguém que não entende o significado da palavra lealdade, respeito e empatia.
E sabem o que é pior? É que o sistema não só absorve esse tipo de gente – ele o recompensa. O sistema o aplaude. Coloca-o na capa de revista, dos principais jornais e nas colunas sociais.
O mais grave, ainda, é a constatação de que essas ações ambiciosas, quando bem-sucedidas, viram exemplo.
É isso.
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