“O tempo é teu capital; perder tempo é estragar a vida”

LUIZ THADEU NUNES E SILVA
Engenheiro Agrônomo, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.
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Caro leitor, amiga leitora, começo citando Franz Kafka (1883-1924), escritor tcheco, reconhecido por suas obras surrealistas e angustiantes que exploram a alienação e a burocracia, com preocupação permanente com o tempo. Suas principais obras: A Metamorfose e O Processo. Em A Metamorfose, o tempo é sentido na angústia de Gregor Samsa, onde a urgência e a tensão aumentam, e o tempo se arrasta ou acelera para destacar a opressão e a deterioração física e psicológica do personagem.
Kafka via o tempo de forma prática e angustiante: “O tempo é teu capital; tens de o saber utilizar. Perder tempo é estragar a vida”. Essa visão reflete a urgência em suas obras e a pressão de sua própria rotina.
Sexta-feira, 17 de abril, final da tarde. Enquanto escrevo, acompanho pelo noticiário a notícia da morte de Oscar Schmidt, aos 68 anos. Nascido no brilhante ano de 1958, o mesmo que estreei por aqui; tínhamos a mesma idade. Pelo gigantismo de seu legado, o obituário exibido pelas mídias o mostra como um homem preocupado em fazer o melhor com seu tempo. E, fez.
Após descobrir um câncer – que abateria a maioria – partiu para cima e viveu mais intensamente até a partida. “Não brinque com a vida, viva ela intensamente naquilo que você puder. Se você tiver dez, viva dez; se você tiver vinte, viva vinte. Se você tiver muito, viva muito, porque ela é uma só, e quando acaba, acabou”, disse Oscar em entrevista.
As lições que Oscar deixa são de que vale a pena viver. De forma plena e intensa. Focado e obstinado como homem de valores e atleta de ponta, quando adolescente e fazendo parte da seleção de basquete de Brasília, para onde a família se mudou ao deixar Natal, o técnico do time lhe perguntou: qual seria seu sonho? Sempre pensando grande, respondeu: “Fazer parte da seleção brasileira de basquete”. “Então dorme com a bola”, disse o técnico. Foi o que ele fez. Treinou ainda mais, para atingir seu objetivo. Foi o maior atleta do basquete brasileiro.
“O presente é o instante em que a roda do carro em alta velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará em um imediato que absorve o instante presente e torna-o passado”, cito Clarice Lispector, no livro “Água viva”.
Em um mundo de superficialidades e de baixo teor de pensamentos, o futuro não se anuncia, ele se deteriora em silêncio, como um organismo cuja falência já começou antes mesmo de qualquer diagnóstico. A hospitalização do porvir não é um evento súbito, mas o resultado cumulativo de uma longa negligência intelectual, onde pensar deixou de ser uma necessidade vital para se tornar um ornamento dispensável.
Viver é a coisa rara, a maioria apenas existe. Sem objetivos, metas ou projetos de vida.
Em um mundo cada vez mais artificial, a superficialidade não é apenas ausência de profundidade, é uma forma ativa de empobrecimento da experiência. Ela simplifica o que deveria ser complexo, acelera o que exige demora, e substitui o esforço da compreensão pela conveniência da opinião imediata. Nesse ambiente, o pensamento amadurece, ele se fragmenta, perde densidade, torna-se reativo, incapaz de sustentar qualquer elaboração mais rigorosa da realidade.
Para Franz Kafka, o tempo é um capital precioso e limitado, cuja perda equivale a desperdiçar a própria vida. Sua obra reflete uma existência marcada pela urgência, angústia e finitude, onde o tempo não flui linearmente, mas sim de forma opressiva, burocrática e muitas vezes absurda. Kafka via o tempo como o recurso mais valioso do indivíduo, que deve ser utilizado com sabedoria. A consciência da morte e a limitação do tempo dão intensidade e significado à vida, tornando cada momento único e urgente.
Esta sexta-feira ficou marcada como a despedida daquele que mais encestou na história do basquete brasileiro. Oscar Daniel Bezerra Schmidt, o “Mão Santa”, acumulou 49.973 pontos em jogos oficiais durante sua carreira, sendo amplamente reconhecido como um dos maiores cestinhas da história do basquete mundial. Essa marca foi atingida em 1.615 partidas ao longo de 25 temporadas.
Oscar Schmidt soube dignificar seu tempo. Nunca se apequenou diante dos desafios da vida. Partiu grande.
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