Fechar
Buscar no Site

Varal do tempo: a vida acontece no intervalo da pressa

LUIZ THADEU NUNES E SILVA
Engenheiro Agrônomo, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.           
Instagram: @Luiz.Thadeu                   
Facebook: Luiz Thadeu Silva
E-mail: [email protected]

E o tempo, às vezes tão cruel, que não presta atenção em nós, também nos traz maturidade. Mas somente para aqueles que querem aprender. Há um discursão antiga, em que muitos pensam que maturidade vem com o passar dos anos. Ledo engano. Muitos envelhecem e não conseguem aprender nada, ou como dizia minha saudosa mãe, Maria da Conceição: “Tem gente que não amadurece, simplesmente apodrece.”

Para aqueles que querem aprender, a gente vai descobrindo novos caminhos, tirando da gaveta sonhos adormecidos, inventando novos sonhos, se conhecendo, de verdade… Nos moldando, crescendo, melhorando.

Aprendemos então que, solidão nem sempre significa estar só. Que as mais belas palavras são aquelas ditas num longo silêncio. Descobrimos que um abraço cura.

Que a alegria rejuvenesce, e o sorriso verdadeiro, é aquele que acompanha o olhar. Que o coração não envelhece. Que é possível ser feliz em qualquer tempo, a qualquer hora. Em qualquer lugar…

Há no ato de caminhar um mistério que ultrapassa a simples mecânica do movimento. Cada passo é um pacto silencioso com o desconhecido, uma afirmação de coragem diante do que não se vê. Ao erguer o pé, confiamos no chão que ainda não tocamos, no espaço que ainda não habitamos. Um passo no acaso é, portanto, mais do que um gesto físico: é a materialização da entrega, o instante em que a vontade abre mão de si mesma para que algo maior possa acontecer. É o salto que separa não apenas a segurança da possibilidade, mas a definição do homem que fomos, ao invés do homem que poderíamos ser.

Mas quantos passos deixamos de dar? Quantas vezes hesitamos diante da bifurcação, presos à ilusão do controle? A hesitação, quando exagerada, não é prudência: é uma forma disfarçada de covardia existencial. Ao temer o acaso, perdemos de vista sua verdadeira natureza, pois ele não é caos, mas convite. Não é ausência de rumo, mas a abertura para caminhos que transcendem nossa visão acanhada. Quem se fecha ao imprevisível não conquista a estabilidade que busca; torna-se, ao contrário, prisioneiro de uma rotina que, à força de repetição, perde até o conforto que prometia oferecer. O controle absoluto é uma miragem, e a vida, em sua essência irredutível, é imprevisível. Quem não aceita isso não aceita a vida. Não há obviedades na vida. Tudo é fruto do inesperado. Dizem que Deus sorri de nós, quando fazemos planos futuros.

São os encontros inesperados que redesenham nossas trajetórias: a palavra dita ao acaso que muda o curso de uma conversa, o dia em que, por capricho ou distração, tomamos outro caminho e cruzamos com aquilo que jamais soubemos que buscávamos. O imprevisível não nos ameaça; ele nos forma. Os Estoicos compreenderam isso quando propus eram o amor fati, o amor pelo que acontece, não como resignação passiva, mas como reconhecimento de que a resistência ao real é mais destrutiva do que o próprio real. Dar um passo no acaso é reconciliar-se com o imponderável: aceitar que a existência não é uma equação a ser resolvida, mas uma tensão a ser vivida.

“O tempo, tão cruel quanto é, tem o poder de curar e destruir. Ele cura as feridas profundas, mas também nos rouba a juventude; os momentos que não vivemos e os abraços que nunca demos. E, no fim, percebemos que o que nos define não são os anos que vivemos, mas o que fizemos com eles”, Gabriel Garcia Márquez.

A vida não é um destino fixo. É caminho. E, esse caminho muda o tempo todo.

“O tempo não passa, me atravessa” cito o lirismo do poeta Rinaldo. A vida acontece no intervalo da pressa.

O conteúdo deste blog é livre e seus editores não têm ressalvas na reprodução do conteúdo em outros canais, desde que dados os devidos créditos.

mais / Postagens