A patologia da ambição

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA DE ALMEIDA
Desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão
E-mail: [email protected]
Convém destacar, de logo, que a ambição, conquanto possa ser, em determinadas circunstâncias, uma armadilha ou a própria ruína (vide caso Banco Master e suas implicações), ela não é de todo ruim, porque, afinal, é ela que move as civilizações, impulsiona descobertas e é capaz de elevar o ser humano para além de sua condição imediata, como sói ocorrer, a reafirmar o óbvio: a ambição não é necessariamente danosa, desde que não assuma contornos patológicos, sobre o que pretendo refletir adiante.
Pois bem. Sob a perspectiva que me levou a essas reflexões, há uma versão dela (da ambição) que é perversa, grave, e profundamente danosa, porque é do tipo que corrompe silenciosamente, sorrateiramente, às escondidas, até que um dia as consequências dela se revelam, expondo os que sob o seu manto se mantiveram escondidos, à sorrelfa, furtivamente. Essa ambição, que é a que importa para essas reflexões, é a de natureza material que, todos testemunhamos cotidianamente – e a história está prenhe delas –, tem destruído biografias, mesmo as mais lustrosas, exatamente porque, para determinadas pessoas, ela simplesmente não tem limite, ela se mede em bens, cifras e posses, passando ao largo dos valores morais que muitos de nós insistimos em cultivar e preservar, levando o homem à sua própria destruição.
Os filósofos, a propósito, denominavam essa forma de ambição, no sentido aqui empregado, de pleonexia, que é o vício de sempre querer mais do que se tem, não por necessidade, mas por incapacidade de reconhecer o suficiente. A palavra deriva do grego pleon (mais) + echein (ter), que, literalmente, significa “ter mais”, indo além da simples ganância. É uma sede insaciável que se autoalimenta. É como se cada conquista gerasse não satisfação, mas um novo desejo. É como se pessoas que pensassem e agissem assim estivessem sempre insatisfeitas com o que tem, pouco importando o ser, mas o ter. É o vício da alma, como bem descreve Aristóteles, ou o sintoma de uma alma desordenada, como a via Platão. É a mentalidade moderna, na minha visão, que destrói reputações: mais dinheiro, mais status, mais poder – não como meios, mas como fins em si mesmos, num quadro patológico que acomete alguns homens públicos, levando-os à degradação moral.
Em situações em que a ambição material sobrepuja, deliberadamente, a própria trajetória de vida, sobrevém a desmoralização, as relações deixam de ser saudáveis porque elas representam apenas redes de interesses, são instrumentalizadas para a obtenção de mais e mais, sem controle, sem peias e sem limites.
A história nos oferece retratos nítidos do que estou falando, a reafirmar grandes fortunas erguidas sobre atalhos éticos, levam figuras públicas, antes intocadas, a perderem o respeito dos seus concidadãos, na medida em que decidiram colocar a riqueza no centro de sua identidade moral, tornando o homem refém daquilo que conquistou, cujos efeitos são potencializados quando se trata de homem público, do qual se exige a maxime probidade e controles morais internos capazes de controlar os seus impulsos e sua ambição.
Nesse cenário, em que se coloca a posse como algo a ser sublimado, nós outros, que não fomos capazes – por incompetência ou retidão – de acumular riqueza, somos tratados como quem falhou, distorcendo o sentido do mérito, ante a cultura que se fortalece inspirada na ambição.
A ironia de tudo o que envolve a ambição, no sentido empregado nessas reflexões, é que ela entrega consumo, entrega prazer, leva as novas relações, mas também entrega a diminuição de caráter, destruição da história e da biografia de quem do poder se vale para realização de desejos meramente materiais, daí a indagação que a mim me resta fazer, para encerrar essas reflexões: vale a pena uma ambição que destrói reputações, apaga legados, aniquila biografia e se revela como um grave defeito moral?
É isso.
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