Haverá sempre quem lhe estenda a mão

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA DE ALMEIDA
Corregedor-geral da Justiça
E-mail: [email protected]
É sobre essa afirmação que pretendo refletir hoje.
Digo, desde logo, que, na maioria das vezes, as circunstâncias da vida impõem que cada um cuide de si. Por isso, na dor, na solidão e na tristeza, frequentemente não temos quem segure as nossas mãos, exceto – com raras exceções – as pessoas mais próximas. A mão estendida costuma aparecer apenas quando o pior já passou e fomos obrigados a caminhar sozinhos. Posso dizer, metaforicamente, que, no auge do naufrágio, o mar está sempre deserto.
Nos corres da vida moderna, o relógio e a pressa ditam o ritmo, tornando a solidariedade um luxo quase esquecido, pois cada um corre para o seu lado, com os olhos fixos no presente, a mente voltada para o futuro e a memória sobrecarregada por problemas que deveriam estar esquecidos no passado.
A verdade, sobretudo nos dias atuais, é que há uma multidão “curtindo” as artificialidades/superficialidades das redes sociais, mas omissa diante das necessidades do semelhante — para o qual, muitas vezes, bastariam uma palavra ou um afago, provas singelas de apreço e solidariedade, convindo destacar que, nesse cenário, não são poucos os que estendem as mãos apenas para cultivar a imagem de bondade e generosidade, aliviando a própria culpa, mas sem paciência ou estímulo para sustentar o “peso” da solidariedade por muito tempo.
A falta dessa mão é, para mim, a constatação de que, sejam quais forem as nossas dificuldades, o mundo continuará girando, indiferente à nossa paralisia. É assim que a banda toca. Outras vezes, quando a mão finalmente nos socorre, já vem tarde demais; serve apenas para enxugar o suor do rosto de quem aprendeu a se virar — ou ainda luta para se salvar — em um mundo onde cada um parece viver para si.
Apesar dessa constatação, mantenho a expectativa de que alguém possa estender a mão ao próximo. Estender a mão, em uma hora difícil, é reconhecer a existência do outro; sob a perspectiva da alteridade, é admitir que o próximo, mesmo sendo diferente de nós, é igualmente um ser humano, com suas fragilidades, dificuldades e necessidades.
Eu não sei andar sozinho, algo facilmente percebido por quem está ao meu entorno. Definitivamente, preciso de quem segure a minha mão, dada a minha reconhecida fragilidade. Nem sempre, no entanto, encontramos esse amparo. Esse meu sentimento é a reafirmação do óbvio: a gente precisa da gente. Para minhas expectativas, é incompreensível que alguém deixe a mão de outrem estendida sem tentar oferecer auxílio.
Há uma máxima popular que diz: “Se não houver quem segure a sua mão, coloque-a no bolso e prossiga a jornada”. No meu caso, não dá para prosseguir com as mãos nos bolsos. Minha expectativa, embora frequentemente frustrada, é a de que sempre haverá alguém disposto a me dar a mão.
Amparar, no sentido aqui empregado, não é literal. Segurar a mão é estar disposto a ouvir, a emprestar o ombro num momento de angústia, a compartilhar a dor e a enxugar as lágrimas quando elas insistem em cair. Dar a mão não é dizer frases clichês como “tenha fé”, “vai passar” ou “Deus sabe o que faz”. O que proponho é refletir sobre o aperto de mão que não oferece moedas ou mantimentos, mas solidariedade real. É a coragem de ficar ao lado quando todos relutam, compartilhando o sofrimento do próximo.
No sentido espiritual, a mão não serve necessariamente para puxar alguém do buraco de imediato. Ela serve para que a pessoa em dificuldade saiba que sua dor, por mais intensa que seja, não é uma sentença de solidão.
Para ilustrar a necessidade de superarmos o individualismo, trago uma história que li há algum tempo.
Dois grandes amigos saíram para tomar banho em um rio, mata adentro. De repente, surge uma onça. Ambos se preparam para correr.
Um deles se apressa em calçar os tênis, ao que o outro adverte:
– Não perca tempo com isso! Achas mesmo que os tênis te livrarão das garras do felino?
O amigo respondeu:
– Pode ser que não. Só sei que preciso correr mais do que você.
Ou seja: na hora do “salve-se quem puder”, o amigo optou por deixar o outro para trás. Assim tem sido a vida. No momento crucial, prevalece o “cada um por si”, reafirmando que nem sempre haverá mãos dispostas a nos socorrer.
Fica a constatação, à luz dessas reflexões: ser solidário e não abandonar quem precisa é o que ajuda a humanidade a se manter viva. É o que impede que o homem perca a fé no próprio homem.
É isso.
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