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A farda, a memória e a honra de desfilar

CEL. VETERANO CARLOS FURTADO

Depois de quase uma década, os uniformes que utilizei em boa parte da minha vida profissional permanecem cuidadosamente conservados. Repousavam, em silêncio, em um armário envidraçado de minha residência, ao lado das condecorações e de outros símbolos que testemunharam uma longa trajetória na Polícia Militar do Maranhão.

É, de certa forma, um pequeno museu particular. Um espaço reservado, que apenas um seleto grupo de pessoas tem a oportunidade de conhecer e contemplar. Ali estão guardadas não apenas peças de tecido, medalhas e insígnias, mas, sobretudo, histórias, momentos, conquistas, amizades, sacrifícios e lembranças de uma vida inteira dedicada à Corporação.

Eis que, quando já imaginava que aquelas fardas permaneceriam definitivamente como peças de memória, surgiu um convite absolutamente inesperado.

Recebi uma ligação do comandante-geral da Polícia Militar do Maranhão, coronel Wallace Amorim, formulando-me um honroso convite: desfilar no histórico jipe da corporação, abrindo o desfile militar das viaturas oficiais no dia 7 de Setembro, em São Luís.

Confesso que, naquele instante, fui tomado por uma mistura difícil de traduzir em palavras: honra, emoção, alegria e gratidão.

Era uma daquelas distinções que, ao longo de uma carreira, a gente imagina, mas jamais sabe se terá a oportunidade de viver. E, para mim, tinha ainda um significado muito maior: voltar a vestir a farda, não para uma solenidade qualquer, mas para o desfile de 7 de Setembro, diante da sociedade maranhense, a bordo de um veículo histórico da instituição à qual dediquei 35 anos da minha vida.

A lembrança me conduziu a outro momento da carreira. Ainda como major, recebi a determinação para integrar o Estado-Maior Conjunto com as Forças Armadas e as Forças Auxiliares, para o desfile militar do 7 de Setembro. Na época, quem recebia essa missão desfilava no jipe histórico da corporação. Cumpri inicialmente a determinação, mas logo tomei conhecimento de que a coordenação do grupo estava a cargo de um major do Exército Brasileiro, e o referido oficial possuía aproximadamente cinco anos de promoção posteriores à minha. Embora sendo uma significativa honra, ponderei a situação solicitando ao então comandante-geral que me dispensasse daquela comissão. Após ouvir-me, o comandante determinou que outro oficial fosse designado para a missão, recaindo a escolha sobre o major Diniz de Vasconcelos.

O tempo, entretanto, tem uma maneira muito peculiar de escrever a história. Aquilo que naquela época não aconteceu acabou, décadas depois, sendo substituído por algo que considero infinitamente mais significativo.

Já na condição de coronel veterano, na reserva remunerada, recebi o convite para retornar à avenida e, desta vez, não simplesmente como participante do desfile, mas embarcado no mesmo jipe histórico representando todos os veteranos da Polícia Militar do Maranhão, conduzindo comigo, simbolicamente, parte da história da corporação.

A maior emoção foi vestir novamente o uniforme histórico da Academia de Polícia Militar “Gonçalves Dias”, instituição de ensino superior da Polícia Militar do Maranhão, na qual encerrei minha trajetória no serviço ativo.

Há algo profundamente simbólico nisso: foi naquela Academia que concluí o último capítulo da minha vida profissional na ativa. E foi justamente com a sua farda histórica que tive a oportunidade de retornar, anos depois, às ruas, não mais como aquele jovem oficial que um dia ingressou na corporação, mas como um coronel veterano carregando consigo as marcas de uma caminhada de décadas.

A farda, para mim, nunca foi apenas uma vestimenta. Ela sempre foi uma segunda pele.

Cada uniforme guardado carrega uma época. Cada insígnia representa uma responsabilidade. Cada medalha recorda uma etapa vencida. Cada condecoração traz consigo pessoas, acontecimentos e circunstâncias que jamais serão esquecidos.

Por isso, quando tornei a vestir aquela farda, não estava simplesmente colocando sobre o corpo um uniforme que permanecera quase dez anos guardado. Estava revivendo novamente a minha história.

Vestia a memória dos companheiros de jornada. Vestia as noites de serviço, as madrugadas de trabalho, as missões cumpridas, as dificuldades superadas, as amizades construídas e, sobretudo, o compromisso assumido, ainda jovem, de servir à sociedade por intermédio da Polícia Militar. E havia algo ainda mais bonito: naquele momento, eu não desfilava sozinho.

Comigo desfilavam quatro décadas de lembranças. Desfilavam os homens e as mulheres com quem compartilhei a vida militar. Desfilavam aqueles que vieram antes de mim e construíram a corporação. Desfilavam também os que continuam servindo e aqueles que, como eu, já passaram à reserva, mas jamais deixaram de ser policiais militares.

Porque podemos deixar o serviço ativo. Podemos guardar a farda. Podemos retirar as insígnias dos ombros. Mas a condição de policial militar, quando verdadeiramente incorporada à alma, não se aposenta.

Nesse 7 de Setembro, ao lado do histórico jipe da Polícia Militar do Maranhão, compreendi, ainda com mais profundidade, que determinadas honrarias não são apenas reconhecimentos pessoais. São reencontros.

Reencontro com a instituição. Reencontro com a farda. Reencontro com a própria história. E, acima de tudo, reencontro com aquele jovem oficial que um dia vestiu, pela primeira vez, a farda da Polícia Militar e que, tantos anos depois, teve a felicidade de vesti-la em um desfile de uma das mais importantes datas cívicas do Brasil.

Foi uma honra. Foi uma emoção. Foi uma alegria. Mas, sobretudo, foi a certeza de que algumas histórias nunca terminam. Elas apenas aguardam o momento certo para voltar a desfilar.

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