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O Império da Lisonja: Como a bajulação sabota a meritocracia e corrói o serviço público

Raízes históricas e as engrenagens do favoritismo

 

CARLOS FRANK PINHEIRO DE OLIVEIRA*

O equilíbrio operacional e a eficiência do Estado dependem intrinsecamente dos critérios que regem a ascensão funcional e a ocupação de cargos de liderança. No núcleo dessa dinâmica, travam um embate destrutivo duas forças opostas: a meritocracia institucional, pautada pela competência técnica e pela impessoalidade, e a bajulação corporativa, sustentada pelo fisiologismo relacional e pelo clientelismo disfarçado. Compreender a coexistência dessas forças exige desnudar suas trajetórias históricas e os mecanismos informais que garantem a perpetuação da adulação na máquina estatal contemporânea.

Historicamente, a transição dos estados patrimonialistas para os modelos burocráticos modernos teve como bandeira a superação do favoritismo. Conforme a teoria de Weber (1982), a burocracia moderna exige a completa separação entre o patrimônio público e o privado, legitimando-se por regras fixas e competência técnica. No Brasil, o esforço de profissionalização ganhou força na década de 1930 com o DASP e consolidou-se com a exigência universal do concurso público na Constituição de 1988. Contudo, como aponta Faoro (2021), as estruturas patrimonialistas brasileiras historicamente se adaptam e sobrevivem. A bajulação possui raízes profundas herdadas do clientelismo e do coronelismo, nos quais a proximidade afetiva e a lealdade cega ao governante ditavam a sobrevivência e o prestígio político.

Os mecanismos da meritocracia sustentam-se em ferramentas formais de avaliação, como concursos de provas e títulos, indicadores objetivos de produtividade e planos de carreira estruturados. O propósito é garantir que o avanço profissional decorra estritamente do esforço individual e da qualificação, sob a égide da impessoalidade. São processos públicos, teoricamente blindados contra interferências externas.

Por outro lado, o império da lisonja opera por engrenagens informais e táticas psicossociais camufladas no cotidiano das repartições. Seus principais mecanismos incluem a concordância incondicional com as decisões da chefia — mesmo as tecnicamente desastrosas —, a ocultação deliberada de problemas e a autopromoção dissimulada. Enquanto a meritocracia exige validação por dados, o ecossistema da adulação alimenta-se da fragilidade narcísica de gestores centralizadores. Como adverte Tragtenberg (2006), a burocracia frequentemente converte-se em um espaço de dominação pessoal, onde a subserviência passa a ser a principal moeda de troca para o preenchimento discricionário de cargos comissionados e funções gratificadas.

ANATOMIA DAS CONSEQUÊNCIAS: O CICLO DA INCOMPETÊNCIA PROTEGIDA

A prevalência da adulação sobre o mérito gera impactos devastadores na cultura organizacional e na eficiência governamental. A meritocracia legítima estimula a inovação, aumenta a produtividade e valoriza o capital humano, pois servidores que percebem uma correlação direta entre desempenho e reconhecimento tendem a investir em sua formação. A desvantagem associada ao modelo ocorre apenas quando os critérios são mal desenhados ou puramente produtivistas, gerando uma competição predatória que ignora a colaboração institucional.

Em contrapartida, a bajulação carece de qualquer vantagem legítima sob a ótica do interesse público, configurando uma verdadeira patologia organizacional. No entanto, para o indivíduo que a pratica, oferece uma rota rápida e de baixo esforço cognitivo para a progressão funcional, contornando exigências técnicas. Para o gestor vaidoso, a vantagem aparente é o conforto de liderar uma equipe submissa. As consequências, contudo, destroem a instituição: ocorre a marginalização dos talentos técnicos, a tomada de decisões baseada em caprichos e o consequente esvaziamento ético do ambiente laboral, transformando o espaço público em um balcão de trocas de favores simbólicos.

Esses impactos moldam diretamente a qualidade dos serviços entregues ao cidadão. Quando a bajulação se sobrepõe ao mérito, o Estado sofre uma acentuada perda de capacidade regulatória e executiva. A premissa republicana de que os mais aptos devem gerir os recursos coletivos é substituída pelo “ciclo de incompetência protegida”. Nesse cenário, líderes despreparados cercam-se de subordinados dóceis, bloqueando qualquer feedback realista ou inovação baseada em evidências científicas que ameace o status quo. O questionamento técnico passa a ser punido como insubordinação, enquanto o silêncio cúmplice é premiado.

O resultado é o adoecimento do corpo funcional, marcado pelo cinismo organizacional, desmotivação crônica e pela severa perda de legitimidade da máquina pública perante a sociedade civil. Para reverter essa inércia burocrática, torna-se imperativo o fortalecimento de auditorias de competências externas, sistemas de avaliação de desempenho de 360 graus e canais transparentes de ouvidoria. Somente ao blindar efetivamente os processos de promoção contra o favoritismo pessoal será possível consolidar uma burocracia estatal profissional, ética, eficiente e orientada ao bem comum.

REFERÊNCIAS

FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 6. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

TRAGTENBERG, Maurício. Burocracia e ideologia. 2. ed. São Paulo: UNESP, 2006.

WEBER, Max. Ensaio sobre a Burocracia. In: GERTH, H. H.; MILLS, C. Wright (org.). Essays from Max Weber. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. p. 229-282.

*Membro fundador, efetivo e perpétuo da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam), na cadeira Nº 20, patroneada pelo Alferes Tiradentes. Coronel da Polícia Militar do Maranhão. Bacharel e especialista em Segurança Pública, mestre em Direito Constitucional e Teoria Política e aprovado no exame da OAB. Professor. Pesquisador que desenvolve estudos nas áreas de Segurança Pública, Direito e Teoria do Poder.

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