Fechar
Buscar no Site

As últimas chaves: À memória de José de Ribamar Moreira e Isabel Furtado Moreira

CEL. CARLOS AUGUSTO FURTADO MOREIRA*

Penso que há momentos em que a vida nos impõe despedidas silenciosas.

São momentos em que não há cortejos, lágrimas abundantes ou palavras de consolo. Apenas gestos aparentemente comuns, às vezes burocráticos, mas capaz de encerrar um ciclo inteiro de nossa existência.

Ontem foi um desses dias.

Embora não sendo o inventariante para administrar o pequeno patrimônio (espólio) dos meus pais falecidos há cerca de um ano, em face de alguns ajustes, passei a representar meus irmãos e sobrinhos, especificamente, na compra e venda do apartamento em que eles viveram os últimos anos de suas vidas.

Assim, após a formalização da venda, recepção do valor, devidamente repartido entre os herdeiros conforme suas quotas, entreguei as chaves e formalizei a venda do imóvel.

Para o mundo, apenas a transferência de um imóvel. Para mim, entretanto, era a despedida do último espaço físico onde ainda parecia ecoar a presença deles.

Visitei, pela última vez, os cômodos já vazios e foi aí que percebi que o silêncio também tem voz.

Cada parede guardava um fragmento de nossas histórias. A sala parecia conservar as conversas que atravessavam as noites festivas. A mesa de jantar, tantas vezes cercada por filhos, netos e amigos, ainda parecia esperar mais um almoço de domingo. A cozinha, coração daquela casa, parecia conservar o perfume dos pratos preparados com carinho por minha mãe, sempre preocupada em oferecer mais do que alimento: ela servia afeto.

Meu pai gostava da casa cheia.

Minha mãe gostava da mesa posta.

Os dois gostavam da família reunida.

Talvez, por isso, aquele apartamento jamais tenha sido apenas um imóvel. Era um lugar onde a alegria tinha endereço certo.

Ali comemoramos aniversários, Natais, Dias das Mães, Dias dos Pais, conquistas profissionais, formaturas e tantas outras ocasiões que hoje pertencem à memória, mas continuam vivas na alma de quem as experimentou.

Meus pais nunca precisaram de riquezas para serem grandes.

Construíram sua vida sobre fundamentos muito mais sólidos: o trabalho honesto, a fé em Deus, o respeito ao próximo e o amor incondicional à família.

Foram mais de sessenta anos de matrimônio, caminhando lado a lado. Enfrentaram dificuldades, venceram desafios, viajaram por lugares que sonharam conhecer e permaneceram fiéis à Igreja Católica, onde encontraram a força espiritual que orientou a educação de seus filhos.

Se hoje nossa família valoriza os estudos, a dignidade, a responsabilidade e a solidariedade, muito disso nasceu dentro daquela casa.

Ali, aprendemos que o patrimônio mais valioso não se mede em metros quadrados, mas na grandeza dos princípios que os pais conseguem transmitir aos filhos.

Os anos passaram.

Vieram as limitações da idade. Aos oitenta e oito e oitenta e cinco anos, respectivamente, as fragilidades do corpo anunciaram que a missão terrena se aproximava do fim. Partiram serenamente, deixando um vazio que jamais será preenchido, mas também uma herança moral que jamais será perdida.

Quando entreguei aquelas chaves, compreendi que nenhuma escritura registra aquilo que verdadeiramente importa.

Casas podem ser vendidas.

Objetos podem ser repartidos.

Bens materiais mudam de proprietário.

Mas ninguém compra as lembranças de uma família.

Ninguém adquire as orações feitas ao redor da mesa.

Ninguém leva consigo os abraços, os risos, as bênçãos dos pais antes da viagem ou as palavras de incentivo nos momentos difíceis.

Essas riquezas permanecem pertencendo àqueles que as viveram.

Ao sair do apartamento, olhei uma última vez para a porta que tantas vezes atravessei ao longo de tantos anos.

Não disse adeus.

Apenas agradeci.

Agradeci a Deus por ter me concedido pais que fizeram da simplicidade uma virtude, da honestidade um compromisso e do amor uma forma permanente de educar.

Compreendi, então, que a verdadeira herança não estava entre aquelas paredes.

Ela caminhava comigo.

Estava em meus irmãos.

Em meus filhos.

Em meus netos.

E continuará existindo enquanto houver alguém disposto a repetir os gestos de bondade, fé e generosidade que José de Ribamar Moreira e Isabel Furtado Moreira transformaram em modo de viver.

Hoje, entreguei as últimas chaves.

Mas descobri que o amor não conhece fechaduras.

As portas da memória permanecem abertas.

E nelas meus pais continuarão entrando, todos os dias, com a mesma serenidade de quem jamais deixou de habitar o coração de seus filhos.

*Historiador e escritor. Presidente das Academias de Letras dos Militares Estaduais do Brasil e do Distrito Federal (Almebras) e da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam).

O conteúdo deste blog é livre e seus editores não têm ressalvas na reprodução do conteúdo em outros canais, desde que dados os devidos créditos.

mais / Postagens