O Estado brasileiro: caro, ineficiente e distante do cidadão

CARLOS FURTADO*
O Estado brasileiro, tal como se apresenta à sociedade contemporânea, revela uma contradição profunda: é oneroso para o contribuinte, ineficiente na entrega de serviços essenciais e incapaz de garantir plenamente segurança, saúde e educação de qualidade, pilares mínimos de qualquer nação que se pretenda justa e civilizada. Essa realidade não é fruto de um governo isolado, mas resultado de décadas de distorções estruturais, má gestão e fragilidade institucional.
O peso do Estado se manifesta na elevada carga tributária, desproporcional à qualidade dos serviços oferecidos. O cidadão paga como se vivesse em um país desenvolvido, mas recebe serviços públicos que, em muitos casos, não atendem sequer aos padrões mínimos de dignidade. Esse desequilíbrio alimenta a descrença nas instituições e aprofunda o distanciamento entre o Estado e a sociedade.
A ineficiência administrativa é outro traço marcante. A máquina pública brasileira é extensa, burocratizada e, muitas vezes, voltada para a própria manutenção, em detrimento do interesse público. A multiplicação de cargos, estruturas sobrepostas e órgãos com funções redundantes consome recursos que deveriam ser direcionados à melhoria efetiva das políticas públicas. Falta planejamento de longo prazo, avaliação de resultados e responsabilização pelos erros.
A vulnerabilidade à corrupção constitui uma chaga histórica. Independentemente da orientação ideológica dos governos, o Estado brasileiro mostra-se permeável a práticas ilícitas, desvios de recursos e alianças políticas baseadas em interesses particulares. A corrupção não apenas dilapida o erário, mas corrói a confiança social, enfraquece a democracia e perpetua desigualdades. O mais grave é a naturalização do problema, como se fosse um mal inevitável, quando, na verdade, é consequência da ausência de controles eficazes e de uma cultura de impunidade.
No campo da segurança pública, o fracasso é visível. O Estado não consegue assegurar ao cidadão o direito básico de ir e vir, sem medo. O avanço do crime organizado, a precariedade do sistema prisional e a falta de políticas integradas de prevenção e repressão revelam um poder público frequentemente reativo, desarticulado e incapaz de enfrentar um fenômeno que se tornou nacional e transnacional. A sensação de insegurança, mais do que os dados estatísticos, molda a vida cotidiana e restringe a liberdade dos brasileiros.
A saúde pública, embora amparada por um sistema constitucionalmente avançado, sofre com subfinanciamento crônico, má gestão e desigualdades regionais. Hospitais superlotados, filas intermináveis e falta de profissionais e insumos demonstram que o problema não é apenas de recursos, mas de eficiência, governança e prioridade. O cidadão recorre ao Estado nos momentos de maior vulnerabilidade e, não raro, encontra portas fechadas.
Na educação, o cenário é igualmente preocupante. Apesar dos investimentos expressivos ao longo dos anos, os resultados permanecem aquém do necessário. A baixa qualidade do ensino básico, a desvalorização dos professores e a ausência de projetos pedagógicos consistentes comprometem a formação cidadã e profissional das novas gerações. Sem educação de qualidade, perpetuam-se a pobreza, a violência e a dependência do próprio Estado que falha.
O Estado brasileiro, portanto, enfrenta uma crise que é menos financeira e mais moral, administrativa e institucional. Não se trata de defender um Estado mínimo ou máximo, mas um Estado funcional, ético e comprometido com resultados. Enquanto prevalecer a lógica do aparelhamento, do improviso e do uso político da máquina pública, o cidadão continuará pagando caro por um serviço público que não corresponde às suas necessidades.
A superação desse quadro exige reformas estruturais, fortalecimento das instituições de controle, profissionalização da gestão pública e, sobretudo, uma mudança de cultura política. Um Estado que não serve ao cidadão perde sua razão de existir. E uma sociedade que tolera a ineficiência e a corrupção acaba por legitimar a própria exclusão.
*Historiador e bacharel em Direito.
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