É hora de virar a página e pensar no interesse do Brasil

LUIZ GONZAGA MARTINS COELHO*
Ao encerramento do ano, na condição de cronista atento aos acontecimentos do país, gostaria de deixar registrado aquele que talvez tenha sido o tema mais comentado dos últimos doze meses: a condenação e prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Trata-se, sem dúvida, de um dos assuntos mais espinhosos da pauta nacional, dada à radicalização que ainda contamina o debate público, transformando divergências políticas em autênticos Fla-Flus ideológicos, em que muitos vestem camisas como torcedores fanáticos, não como cidadãos.
Logo após o anúncio da prisão, chamou atenção a declaração do presidente Lula afirmando que “o Brasil deu uma lição de democracia ao mundo ao prender um ex-presidente e quatro generais de quatro estrelas pela tentativa de golpe contra o Estado”. A afirmação tem seu peso. Não devemos, nem podemos, sentir satisfação pessoal com a prisão de quem quer que seja — isso seria apequenamento moral. Mas, como cidadão, reconheço o acerto da reflexão presidencial. Contudo, é impossível não recordar que, não muito tempo atrás, o Brasil já dera outra “lição ao mundo”: a prisão do atual mandatário da nação, também condenado, à época, por comandar o maior escândalo de corrupção da história nacional, episódio que levou à cadeia governadores, deputados, empresários, dirigentes partidários e ministros de Estado — a operação que ficou conhecida por Lava Jato.
É natural que tenham surgido, apressadamente, os defensores de Lula afirmando que ele “foi inocentado”. Mas não corresponde aos fatos. Os processos foram anulados pelo STF em razão de vícios processuais atribuídos à Lava Jato. Anulação não é absolvição. Tampouco foi suficiente para convencer a maioria da população de que os graves desvios confessados por meio de acordos de leniência e as vultosas devoluções de recursos não existiram. Em um país profundamente ferido por décadas de corrupção sistêmica, não é simples apagar da memória coletiva aquilo que se viu, ouviu e registrou.
Assim como houve críticas à condução do juiz Sérgio Moro e do procurador Deltan Dallagnol, também há críticas — e muitas — à atuação do ministro Alexandre de Moraes na condução do processo da fake news e outros sob sua relatoria. É da democracia que se questionem autoridades, desde que com base nos fatos e dentro dos limites da República. O que importa, no fim, é que desta vez a punição alcance quem deve alcançar, e que sirva de exemplo a todos os agentes políticos: ninguém está acima da lei, independentemente da sigla partidária, da patente, da história pessoal ou da projeção pública.
A vida pública — especialmente o exercício dos mais altos cargos do Estado — exige renúncia, limites e permanente vigilância ética. Quanto maior a função, maior deve ser o dever de transparência, sob pena de se comprometer a confiança pública que legitima o exercício do poder.
Que este seja, portanto, um ponto de inflexão. Que o Brasil reencontre o seu norte — um caminho de progresso com justiça social, de instituições sólidas, de responsabilidade pública e de menos paixões cegas. Que possamos atravessar o próximo ano com menos radicalização e mais serenidade; menos ódio e mais diálogo; menos idolatrias e mais compromisso com a verdade, com o bem comum e com o futuro das próximas gerações.
A política pode até dividir palanques, mas não pode dividir famílias, amizades ou esperanças. Que o país compreenda, enfim, que nenhuma nação se ergue sobre os escombros do ódio, e que a democracia não se cumpre apenas com instituições funcionando — mas com cidadãos dispostos a ouvir, ponderar e reconstruir.
Passado o Natal — tempo universal de renascimento — deixo aqui um voto sincero: que a luz que guiou os pastores e iluminou os reis magos também ilumine nossos lares, nossas escolhas e nossos dias futuros. Que ela nos conduza em 2026 a momentos de paz, saúde, esperança e prosperidade, com mais pontes e menos muros, mais empatia e menos feridas abertas.
Esse é o novo ano que desejo ao Brasil — e a cada um de nós — a serenidade que faltou, a justiça que se espera e a esperança que jamais pode morrer.
Que possamos ultrapassar esse discurso de nós contra eles e assumir uma postura patriota e altruísta de todos pelo Brasil.
*Promotor de Justiça, titular da 45ª Promotoria de Justiça Especializada da Infância e da Juventude, do Termo Judiciário de São Luís-MA. Acadêmico titular da cadeira nº 11, da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam).
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