Desconfiança como mecanismo de defesa

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA DE ALMEIDA
Corregedor Geral da Justiça
E-mail: [email protected]
Despertou a minha atenção a afirmação contida na coluna de Thaís Oyama, no Jornal O Globo, edição de 27 de dezembro do ano passado, segundo a qual “o brasileiro não confia em ninguém”.
Essa desconfiança foi constatada, ademais, em pesquisa do World Values Survey, divulgada em 2023, e confirmada no recém-lançado livro O Brasil no espelho, do cientista político e CEO da Quaest, Felipe Nunes, com base em levantamento realizado com dez mil pessoas. Segundo o estudo, apenas 6% dos brasileiros concordam com a seguinte afirmação: “Podemos confiar na maioria das pessoas”. Outros 94% estão de acordo com a seguinte frase: “É preciso ser muito cuidadoso com as pessoas”.
A afirmação da jornalista e o resultado do levantamento, apresentado no livro de Felipe Nunes, me levaram a essas a essas reflexões, que inicio com as seguintes indagações: Por que temos dificuldades em acreditar nas pessoas? Onde foi que erramos? Por que chegamos a essa situação?
Tentarei refletir sobre essas indagações, à luz, apenas, da minha experiência de vida, sem nenhuma base científica, fruto, portanto, tão somente da minha natural inquietação diante do ser humano.
Principio, afirmando que a desconfiança é uma sensação instintiva de todos nós, potencializada, ademais, pelo fato de que, desde a mais tenra idade, nos ensinam – e aprendemos – a ter cautela com os semelhantes, aprendizado que vai se consolidando com as decepções acumuladas ao longo da vida, em razão da indiscutível capacidade que o homem tem de dissimular, enganar, ludibriar e tentar levar vantagem em tudo.
Nesse cenário, eu, assim como tantos outros, aprendi, desde muito cedo, naturalmente, a desconfiar do próximo, fazendo-o como um mecanismo instintivo de defesa, que foi se radicalizando na mesma medida em que as decepções foram se somando, a ponto de afetar as relações interpessoais.
Tenho convicção, fruto da minha longa experiência de vida, de que é preciso administrar, com inteligência, parcimônia, equilíbrio, sensatez e temperança, as nossas naturais desconfianças, sem o que a vida em sociedade tornar-se-ia insuportável, na medida em que, se exacerbada, a desconfiança criaria – e cria, efetivamente – barreiras intransponíveis às relações sociais, com a consequente imposição de um isolamento incompatível com a natureza humana.
É preciso, pois, com cautela, mas sem preconceitos ou julgamentos prévios, estabelecer nossas interações com os demais seres humanos, cientes de que podemos, sim, em dado momento, nos decepcionar em face de uma ou outra atitude, já que a desconfiança integra a experiência humana, que não deve, por outro lado, transformar-se em obstáculo às nossas conexões com os semelhantes.
O desafio, pois, a que todos devemos nos submeter, é buscar, com sabedoria – e com lealdade, ingrediente inafastável –, estabelecer nossos vínculos sem permitir que a desconfiança nos impeça de viver e conviver em sociedade, pois, afinal, se é verdade que devemos confiar desconfiando, não é menos verdadeiro que o mundo está repleto de pessoas leais, amigas e desinteressadas, que fazem toda diferença, afinal, nada pode ser mais danoso do que uma comunhão calcada na suspeita permanente.
Um bom começo, nesse sentido, é a adoção de uma comunicação aberta e leal, pois, a partir dela, podemos, sim, com enorme probabilidade, construir relações sólidas, nas quais a desconfiança deve ser apenas – e tão somente – um ingrediente de somenos.
Por fim, importa realçar, para amenizar o peso das constatações anotadas no preâmbulo dessa crônica, que o sentimento de desconfiança que habita todos nós, desde a minha compreensão, não é um defeito, mas uma ferramenta de sobrevivência que, de rigor, moldou a própria civilização.
Não custa lembrar, para ilustrar, que, na savana, o custo de confiar em um predador ou em um estranho hostil pode ser a morte, advertência que deve, do mesmo modo, ser sublimada quando nos relacionamos com quem já tem uma história de deslealdade, cumprindo não esquecer, de mais a mais, de Thomas Hobbes, que defendia, com razão, que o homem é “o lobo do homem”, reforçando, definitivamente, a nossa natural necessidade de desconfiar.
Por fim, cumpre reconhecer que a civilização só existe porque somos capazes de compreender – e, às vezes, superar – a nossa natural desconfiança no semelhante, a qual não pode ser um obstáculo para vivermos a plenitude das nossas relações, ainda que seja necessário acioná-la , como mecanismo natural de defesa.
É isso.
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