‘Parafuso’ e Bernardo Almeida: Eles eram felizes e não sabiam
Ainda sob a consternação ocasionada pela morte de José de Ribamar Elvas Ribeiro, o estimado ‘Parafuso’, que faleceu em São Luís na noite de quinta-feira (27 março), passei o final de semana ocupado com a releitura de um dos melhores livros do saudoso Bernardo Coelho de Almeida (1927-1996): o ensaio autobiográfico intitulado “Éramos felizes e não sabíamos”.
Para quem não sabe, Bernardo Almeida, um dos pioneiros no jornalismo radiofônico do Maranhão, foi o predestinado diretor artístico e administrativo da Rádio Difusora do Maranhão, no esplendor do extraordinário prestígio desta emissora, inaugurada na capital maranhense no dia 29 de outubro de 1955.
No livro “Éramos felizes e não sabíamos”, publicado em 1989, Bernardo Almeida – jornalista, poeta, romancista e político – faz o magistral registro em 48 crônicas de uma São Luís cujos filhos foram felizes sem se dar conta disso.
Na condição de cronista Bernardo Almeida registra, com muito orgulho, a sua rica trajetória de radialista que teve papel central e decisivo na animação daquele “mundo singelo” pelas ondas de rádio, que produziram naquele momento a Era de Ouro do Rádio no Maranhão, sendo ele o todo-poderoso diretor artístico da Rádio Difusora AM 680, a mais completa e influente emissora do Estado.
Seu relato é rico de situações e mostra que naquele tempo uma emissora de rádio era uma grande empresa segmentada – programas de estúdio, programas de auditório, rádio-jornalismo intenso, departamento de esporte, equipe de repórteres, rádio-escuta, cast de cantores e de músicos e de locutores de radionovela – e que influenciava, às vezes decisivamente, qualquer situação, principalmente as de viés político.
O ponto alto era o editorial ‘Difusora Opina’, ao meio dia, por ele redigido diariamente, e por meio do qual a emissora se posicionava, o que fazia com que o governador e o motorista de táxi parassem para ouvi-lo. A audiência e a influência da emissora foram consagradas com a versão da Guerra dos Mundos, de Orson Welles, produzida pelo radialista Sérgio Brito.
Neste episódio entram também a genialidade, o talento e a sonoplastia do nosso célebre ‘Parafuso’, que quase levou a cidade à loucura com a suposta invasão de marcianos. Ele protagonizou este episódio marcante do rádio maranhense: a Guerra dos Mundos. Na ocasião, ‘Parafuso’ fez parte da sonoplastia da adaptação radiofônica da obra literária que narra uma invasão de marcianos ao planeta. Por mal-entendidos, muitos ludovicenses acreditaram que, de fato, estavam sob uma invasão alienígena, o que gerou fechamento de comércios e até intervenções policiais.
A história foi tão marcante que mais tarde tornou-se obra literária. O episódio está registrado em detalhes no livro “Outubro de 1971 – Memórias fantásticas da Guerra dos Mundos”, organizado por Francisco Gonçalves da Conceição.
“Eu era sonoplasta, fazia os sons dos extraterrestres. Foi muito divertido, mas também muito sério. Fui interrogado pela Polícia Federal na época. As pessoas se zangaram comigo. Foi um acontecimento”, lembrou “Parafuso” sobre o ocorrido em uma entrevista a um jornal impresso.
Como radialista veterano, “Parafuso” eternizou sua experiência e conhecimento no livro autobiográfico intitulado “Memórias de um Parafuso”, uma obra que revela bastidores do rádio maranhense e sua trajetória profissional. O livro, lançado em São Luís em 2014, tornou-se uma referência para aqueles que desejam conhecer mais sobre importância deste grande sonoplasta e sobre a evolução do rádio no Estado do Maranhão.
No livro “Éramos felizes e não sabíamos”, Bernardo relata o começo do fim da Era de Ouro do Rádio quando, por ironia do destino, ele próprio, que foi um dos seus ícones, apareceu na primeira transmissão da TV Difusora, em 1963. A Difusora AM resistiu, manteve-se no topo por alguns anos, mas quedou.
“Éramos felizes e não sabíamos” é, portanto, um retrato do mundo feliz no qual o autor viveu. Mas ele acabou por se dar conta de que esse mundo não mais existia quando, infelizmente, o Rádio perdeu força e o prestígio, a TV impôs uma nova realidade, os bares deixaram de ser redutos da boemia autêntica e a violência das ruas começou a mostrar sua cara em São Luís.
Foi nesse novo cenário, muito desafiador para as novas gerações, que Bernardo Almeida faleceu aos 69 anos, no dia 4 de agosto de 1996. ‘Parafuso’ deixou saudades e partiu para a eternidade, aos 93 anos, na última quinta-feira (dia 27 março).
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