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Os professores são imprescindíveis?

PAULO SILVESTRE AVELAR SILVA*

Vivemos em uma sociedade marcada por profundas transformações. Eu diria, inclusive, que estamos passando por um processo de mudança civilizatória. Muitas profissões já desapareceram, enquanto outras, segundo os estudiosos das tecnologias de ponta, poderão deixar de existir nos próximos anos. Diante desse cenário, você já parou para refletir sobre o futuro da educação, das escolas e dos professores?

Após a pandemia da Covid-19, provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, inúmeras mudanças atingiram estudantes e profissionais da educação, tornando necessário reinventar práticas e metodologias de ensino. A incorporação de novas tecnologias modificou as relações pedagógicas e ampliou o debate sobre o papel do professor em uma sociedade cada vez mais digitalizada.

Entretanto, permanece uma questão fundamental: a tecnologia será capaz de substituir o professor? Ou, ao contrário, as transformações do nosso tempo tornam ainda mais necessária a presença de educadores preparados para desenvolver o pensamento crítico, a autonomia intelectual e a formação humana?

Vivemos em uma sociedade de classes que historicamente tem valorizado pouco os professores, sobretudo quando comparados aos setores que concentram riqueza e poder econômico. Apesar disso, o calendário nacional reserva o dia 15 de outubro à celebração do Dia do Professor, uma oportunidade para reconhecer a relevância desses profissionais e refletir sobre as condições em que exercem sua missão.

Em 15 de outubro de 1827, foi promulgado um decreto imperial que determinava a criação de escolas de primeiras letras em cidades, vilas e lugares mais populosos do Império. Entretanto, a implementação das medidas previstas ocorreu de maneira insuficiente e desigual. Ao longo da história brasileira, o acesso à educação de qualidade permaneceu marcado por profundas disparidades sociais e regionais.

Em que pesem os avanços alcançados, persistem problemas decorrentes da dualidade histórica do sistema educacional brasileiro, no qual as oportunidades de aprendizagem e as condições de ensino nem sempre são distribuídas de maneira equitativa. Enquanto determinados grupos dispõem de melhores condições educacionais, parcelas significativas da população ainda enfrentam dificuldades de acesso, permanência e aprendizagem.

Nesse contexto, milhares de profissionais, principalmente mulheres, dedicam anos de suas vidas ao trabalho em sala de aula, demonstrando resiliência, competência e compromisso com a formação das novas gerações.

Nós, professores, precisamos enfrentar inúmeras dificuldades para superar a desvalorização profissional, cujos obstáculos se manifestam desde a formação acadêmica até o exercício cotidiano da docência. Muitas vezes, o desânimo ameaça interromper nossa caminhada, sobretudo quando constatamos as dificuldades de aprendizagem e os elevados desafios enfrentados por estudantes da rede pública.

A insuficiência de recursos, a falta de apoio institucional, as condições inadequadas de trabalho e os problemas de gestão comprometem o desenvolvimento das atividades pedagógicas. Quando existem desvios de recursos públicos, devidamente comprovados, os prejuízos à educação tornam-se ainda mais graves, pois comprometem investimentos que deveriam beneficiar estudantes, professores e comunidades escolares.

Essas circunstâncias podem transformar o exercício da docência em um verdadeiro campo de batalha, marcado por cobranças excessivas, conflitos interpessoais e responsabilidades que ultrapassam, muitas vezes, os limites das atribuições profissionais.

Na rede privada de ensino, por sua vez, professores qualificados também enfrentam desafios relacionados à instabilidade profissional, à pressão por resultados e à falta de reconhecimento de seu papel social. Em diferentes contextos, a valorização do conhecimento e da experiência pedagógica cede espaço a interesses imediatistas, em contradição com a necessidade de promover uma cultura de respeito, diálogo e civilidade.

Diante dessa realidade, torna-se necessário reafirmar que a educação não pode ser compreendida apenas como instrumento de preparação para o mercado de trabalho. Ela constitui um direito fundamental e uma das principais ferramentas de desenvolvimento humano, participação cidadã e transformação social.

Saber que as ideias de Paulo Freire ultrapassaram os limites dos grandes centros urbanos e alcançaram educadores de diferentes regiões brasileiras constitui uma fonte de esperança. A educação libertadora, fundamentada no diálogo, na reflexão crítica e na valorização da experiência humana, permanece presente no cotidiano de professores que acreditam na possibilidade de construir uma sociedade mais justa.

Ainda mantenho a esperança quando encontro educadores comprometidos com a socialização do conhecimento sistematizado e com a democratização das oportunidades de aprendizagem. São profissionais que permanecem na linha de frente da humanização, enfrentando as manifestações de intolerância, exclusão e barbárie que ameaçam a convivência social.

Resilientes, muitos continuam lutando pela qualidade da educação. Outros, diante das dificuldades e da ausência de perspectivas, abandonam a profissão em busca de melhores condições de trabalho e remuneração. Há, ainda, aqueles que adoecem física e emocionalmente, enfrentando a síndrome de burnout, crises de pânico e depressão.

Essa realidade exige atenção das instituições de ensino, dos gestores públicos, das entidades representativas e da sociedade. É necessário criar redes de apoio aos profissionais da educação, por meio de sindicatos, associações, serviços de acolhimento, acompanhamento psicológico e políticas públicas efetivas de prevenção e cuidado.

A psicoterapia, quando indicada, pode contribuir para o enfrentamento do sofrimento psíquico. Práticas coletivas de acolhimento, como a Terapia Comunitária Integrativa, e abordagens expressivas, como a arteterapia, também podem oferecer espaços de escuta, convivência e expressão, conforme as necessidades de cada pessoa.

Essas iniciativas, contudo, precisam estar associadas à melhoria das condições de trabalho, à prevenção dos riscos psicossociais e ao fortalecimento do apoio institucional. Não basta ensinar os professores a suportar as dificuldades: é necessário enfrentar as causas que produzem o adoecimento e comprometem a qualidade do trabalho pedagógico.

Cuidar da saúde mental dos educadores é tão importante quanto cuidar de sua saúde física. O mesmo compromisso deve ser estendido aos estudantes, pois não se pode construir uma educação verdadeiramente humanizadora sem considerar as necessidades emocionais, sociais e intelectuais daqueles que ensinam e daqueles que aprendem.

Mas retornemos à pergunta que dá título a esta reflexão: os professores são imprescindíveis?

Em tempos de inteligência artificial, automação e circulação instantânea de informações, o professor continua exercendo uma função insubstituível na mediação do conhecimento, na formação ética, no estímulo ao pensamento crítico e na construção de relações humanas. As tecnologias podem ampliar as possibilidades de ensinar e aprender, mas a educação não se resume à transmissão de informações. Educar também significa ajudar a formar pessoas capazes de pensar, dialogar, questionar e participar conscientemente da transformação da realidade.

Para concluir, recorro a uma reflexão de Ernani Maria Fiori, apresentada no prefácio “Aprender a dizer a sua palavra”, que integra a obra Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire:

“Em regime de dominação de consciências, em que os que mais trabalham menos podem dizer a sua palavra e em que multidões imensas nem sequer têm condições para trabalhar, os dominadores mantêm o monopólio da palavra, com que mistificam, massificam e dominam. Nessa situação, os dominados, para dizerem a sua palavra, têm que lutar para tomá-la. Aprender a tomá-la dos que a detêm e a recusam aos demais é um difícil, mas imprescindível aprendizado — é a pedagogia do oprimido.”

A reflexão de Fiori, em consonância com o pensamento de Paulo Freire, permite compreender a educação como uma prática que pode favorecer a emancipação intelectual e a participação consciente dos indivíduos na sociedade. Nesse processo, o professor tem papel fundamental ao contribuir para que seus estudantes conquistem autonomia, desenvolvam a consciência crítica e encontrem condições para expressar suas próprias ideias.

Valorizar os professores, portanto, não significa apenas reconhecer uma categoria profissional. Significa defender a educação como direito, fortalecer a democracia e investir na construção de uma sociedade mais justa, solidária e humana.

Sim, os professores são imprescindíveis! Não apenas pelo conhecimento que compartilham, mas também pela capacidade de despertar consciências, cultivar valores e contribuir para que cada estudante descubra sua voz e encontre caminhos para transformar a própria realidade.

Referência bibliográfica:

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011. Prefácio de Ernani Maria Fiori, “Aprender a dizer a sua palavra”.

Fonte de consulta do manuscrito: Instituto Paulo Freire, Manuscritos da pedagogia do oprimido, 1968. Disponível em: https://acervo.paulofreire.org/handle/7891/3629⁠

*Membro Efetivo e Perpétuo, titular da cadeira 29 da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam); presidente da Academia Cururupuense de Letras (ACL), procurador de Justiça e professor de Ensino Superior.

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