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O que cabe em um domingo?

LUIZ THADEU NUNES E SILVA
Jornalista, engenheiro Agrônomo, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.           
Instagram: @Luiz.Thadeu                   
Facebook: Luiz Thadeu Silva
E-mail: [email protected]

Gosto de domingos. O domingo tem um silêncio que não se explica, apenas se sente.

Domingo é um estado de espírito. É como se o tempo caminhasse mais devagar, carregando nas horas uma melancolia doce, quase nostálgica. O cheiro do café da manhã parece ter outro sabor, a luz que entra pela janela com mais calma, e até o coração parece pedir descanso. Hora que leio o jornal com parcimônia, sem pressa. Sim! Ainda leio jornal impresso, especialmente nos domingos, quando sai publicada minha coluna.

Domingo é dia de lembrar das conversas que ficaram na memória, dos abraços que já não se repetem, das mesas cheias que hoje guardam cadeiras vazias. O domingo, mais do que qualquer outro dia, desperta saudade: da infância, das risadas antigas, dos lugares onde já fui feliz. Era logo cedo nos domingos que meu pai, Luiz Magno, me ligava para passarmos em revista nomes conhecidos. Falávamos dos recém falecidos, tecendo histórias pitorescas. Lembro de uma de nossas últimas conversas, em que papai me disse ter encontrado a viúva de um amigo dele, que morrera na casa da amante. Com velório já providenciado, todos comunicados de sua passagem, eis que a viúva descobre o local e as circunstâncias da morte do marido. Tudo mudou. A viúva então chorosa, espraguejava, amaldiçoando o defunto. Não foi ao velório. Foi mudado o local dos serviços funerários, e o quiproquó no velório, enorme. Papai contava isso e gargalhava.

Domingo é um divisor de águas; dia em que a preguiça faz morada.

Quando criança era aos domingos, que minha mãe, após o almoço, arrumava todos os filhos para visitar parentes. Como morávamos em bairro distante, íamos todos, lavados e arreados, para o centro da cidade à casa de tios e seus compadres. Muitas recomendações: comportem-se, nada de correr pela casa. Só aceitem o que lhes oferecerem, nada de pedir. Não falem com a boca cheia. Vão pensar que comem em casa. Não façam perguntas. Era só chegar na casa alheia para perguntar: não vão servir nada? Quando serviam café, a cara de desânimo era grande. Os olhos de mamãe só faltavam sacar.

O bom era quando serviam bolo e Cola Jesus, como era chamado “O sonho cor de rosa das crianças”. Até hoje ao beber Guaraná Jesus, relembro o passado.

Quantas memórias cabem em um domingo. Talvez por isso seja um dia tão poético: carrega em si a mistura de paz e falta, de descanso e lembrança, de presença e ausência. No fundo, todo domingo é um convite a olhar para dentro, sentir o que dói e agradecer pelo que já foi vivido.

Domingo era tempo de macarronada, com ovo cozido cortado, azeitonas; carne de porco e frango assado. Só nos domingos especiais se comia strogonoff.

Domingo também era tempo de ir à igreja, rezar e pedir perdão pelos pecados. Como não sou fã de futebol, poucas vezes fui a estádios.

Quando adolescente, domingo era dia de colocar roupa nova para namorar na praça da igreja matriz em Rosário, onde passava as férias escolares. Havia um trajeto feito no sentido horário, ou no antirritário, onde se paquerava as meninas, enquanto se assistia à TV, colocada em uma caixa, no centro da praça.

Hoje, nos domingos, recebo a visita de filhos, noras e de Heitor, primeiro neto.

Gosto da suavidade dos domingos, onde até o cântico dos passarinhos na janela de casa fica mais bonito. Domingos são memórias vivas de tempos que me habitam.

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