Vida de baixadeiro

OSMAR GOMES DOS SANTOS
Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís, Maranhão. É presidente da Academia Ludovicense de Letras (ALL) e membro das Academias Maranhense de Letras Jurídicas (AMLJ), da Academia Literária do Maranhão (ALMA) e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (AMCAL).
O sol nasce quente na Baixada, sem pedir licença ou desculpas. Antes mesmo de a luz invadir completamente os cômodos da casa de taipa e alvenaria inacabada, o dia já começou. Na cozinha, o chiado do fogão de lenha improvisado tenta garantir o café forte para espantar o cansaço que nem a noite conseguiu levar embora. A escassez não é uma estatística de jornal ou um tema de debate político; é a presença constante na mesa, contada nas gramas de açúcar, café e no resto do pão (quando possível) ou da farinha de mandioca, por nós da baixada chamada farinha d’água.
Ali, o tempo parece rodar num ritmo próprio, marcado pelas estações que ditam a sobrevivência. No verão, é a poeira fina e avermelhada que entra por todas as frestas, seca a garganta e cobre a vegetação. Na época das chuvas, o cenário vira um labirinto de lama e água acumulada, transformando caminhos simples em verdadeiras travessias.
Falar em “oportunidade” para quem cresce na Baixada Maranhense é como falar de um parente distante de quem todos ouvem histórias, mas ninguém nunca viu pessoalmente. Sabe-se que existe, dizem que mora na cidade grande ou nos bairros nobres, mas por ali raras vezes dá as caras.
A juventude aprende a lógica da vida cedo demais. Os meninos e meninas carregam nos olhos um universo inteiro de ambições, mas dividem o tempo entre a escola — com salas quentes, livros escassos e o transporte que muitas vezes falha — e a batalha diária para colocar algo dentro de casa. Estudar exige uma coragem dobrada, uma teimosia quase heroica. O primeiro emprego? Quase um milagre. Os talentos transbordam em cada esquina: estão nas pernas ágeis do futebol jogado no campo de terra batida, na inteligência rápida para resolver problemas com o nada, na habilidade artesanal das mãos. No entanto, faltam as pontes. Faltam os cursos, as empresas, as políticas públicas que transformem potencial em futuro real.
A desigualdade social do baixadeiro não é sutil. Ela berra na ausência do posto de saúde com médicos suficientes, na falta de iluminação pública que torna a volta da escola ou do trabalho informal uma jornada de medo, no preço da passagem de ônibus, carros de frete ou lancha chamada paco-paco, consome boa parte da renda familiar. É o peso de saber que o CEP onde se nasce ainda dita até onde se pode chegar.
E, no entanto, há uma força teimosa que pulsa no peito de quem é baixadeiro. Se o poder público falta, a vizinhança sobra. Existe uma rede invisível de afeto e sobrevivência que mantém o todos de pé. É a vizinha que cede um pouco de tempero ou um punhado de farinha sem cobrar nada; é a porta que permanece aberta para o café coado no fim da tarde; é a conversa fiada na porta ou na calçada que faz a gente esquecer, por uma hora que seja, as contas acumuladas. A alegria ali não é alienação; é ato de resistência. Rir, festejar o aniversário do filho com um bolo simples ou organizar a partida de futebol no domingo são as formas que a comunidade encontra para dizer ao mundo que continua viva, que sua gente existe.
Viver na Baixada é carregar no corpo a marca de uma luta diária e injusta. Não por escolha, mas porque a vida não deu outra opção. É enxergar a dureza da pobreza sem deixar que ela anestesie os afetos, e encarar a falta de chances sem permitir que roubem o direito fundamental de sonhar. O baixadeiro segue firme, pisando na terra seca ou na lama, esperando o dia em que o rio das oportunidades finalmente mude de curso e corra para todos.
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