Tem gente que é pra já; tem gente que é pra daqui a pouco

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA DE ALMEIDA
Membro do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão
E-mail: [email protected]
Ouvi de um jornalista esportivo a frase que tomo de empréstimo para intitular esta crônica. Guardei-a na memória pelo que, sob o meu olhar, ela revela sobre as relações humanas.
Depois de ouvi-la, pus-me a refletir e concluí, sem dificuldade, que há pessoas incapazes de aceitar que não são “pra já” – ou seja, que não constituem prioridade para nós – e que, por isso, devem, sim, ficar para depois, para daqui a pouco, para outro dia.
Em alguns momentos da vida, também cometi o grave erro de me imaginar prioridade de alguém, sem o ser. Só a muito custo me dei conta de que eu não estava entre os que são “pra já”; compreendi, com esforço, que eu figurava entre os do “para daqui a pouco”.
A vida é assim. Nós não somos, necessariamente, a prioridade dos outros. Nossos pleitos e pretensões podem ter de aguardar o “daqui a pouco”. O difícil para muitos, reconheço, é conviver com essa realidade.
O problema, portanto, não reside nas prioridades que elegemos, mas na incompreensão de quem não aceita não ser prioridade na vida alheia e recusa-se a aguardar o momento oportuno. Vale ressaltar que, pensando – e agindo – dessa forma, não se deixa de ser solidário, pois a própria solidariedade exige estabelecer prioridades.
Em um mundo repleto de escolhas, possibilidades, desafios e opções, não é cabível eleger determinadas pessoas como prioridade apenas porque elas se julgam prioritárias. Não são. Essa constatação vale tanto para a vida pessoal quanto para a profissional.
Trazendo a reflexão para o ambiente de trabalho, é preciso compreender, por exemplo, que, se o juiz cuida de um processo com réu preso, essa demanda é “pra já”. O advogado desse custodiado tem prioridade tambem. Os réus em liberdade são os “para daqui a pouco”.
Quando estou tratando de assuntos profissionais, no exercício da jurisdição e/ou ostentando as vestes talares sobre os ombros, minha prioridade são os deveres do cargo — os quais não se confundem com questões privadas. Se, por outro lado, estou no convívio familiar, a família é minha prioridade e seus pleitos vêm em primeiro lugar – são “pra já”, para o agora.
E assim devemos seguir: priorizando o que exige urgência e postergando o que demanda exame diferido.
A grande questão é que muitos de nós não conseguimos distinguir o que é “pra já” do que é “pra daqui a pouco”. E, quando falhamos nesse discernimento, acabamos por errar em nossas escolhas.
Dia destes, recebi um advogado para tratar de um processo no momento em que eu estava absorvido na elaboração de uma crônica. Percebendo minha ocupação – embora ignorasse a natureza dela -, ele prontificou-se a retornar em outra data. Disse-lhe que estava, de fato, ocupado, mas que meus afazeres pessoais não eram a prioridade ali. Atendê-lo com presteza era a urgência, pois, no meu ambiente de trabalho, as pretensões dele eram “pra já”, e o meu artigo podia ficar para depois. E assim o fiz.
Lembro-me, outrossim, de que, certa feita, fui a uma consulta com hora marcada, à qual cheguei com razoável antecedência. Um paciente que chegou depois passou à frente de todos e permaneceu quase uma hora “trocando figurinhas” e rindo alto com o médico. Ambos, sem noção do que é para agora e do que é para depois, esqueceram que cerca de dez pessoas aguardavam na sala de espera. Diante dessa falta de discernimento, eu e os demais nos revoltamos – e reclamamos.
E por que reclamamos? Por que nos revoltamos?
Porque eles não foram capazes de compreender, como faria qualquer pessoa dotada de bom senso, que o bate-papo e as futilidades podiam ficar para depois, mas os pacientes em espera eram “pra já”.
É isso.
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