O fantasma de ferro na lama: O abandono do B-25 Mitchell em Humberto de Campos

CORONEL CARLOS FURTADO*
Há episódios na história que parecem adormecer sob a poeira do tempo, esperando apenas um sopro de curiosidade ou o capricho da maré para emergirem. Foi o que aconteceu com o bombardeiro norte-americano North American B-25D Mitchell, que despencou dos céus maranhenses em uma tarde chuvosa de 13 de maio de 1943, sepultando na Baía do Tubarão, no município de Humberto de Campos, seis vidas e um pedaço crucial da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Redescoberto em julho de 2021 graças à memória oral de pescadores locais e a expedições científicas lideradas pela Universidade Federal do Maranhão (Ufma), o sítio arqueológico do bombardeiro gerou, à época, ondas de entusiasmo. Promessas de salvamento patrimonial, fomento ao turismo histórico e a criação de um museu municipal ganharam as manchetes.
Contudo, a realidade que se descortina hoje em uma visita in loco ao município é de causar indignação a qualquer cidadão zeloso pela memória e pela história pátria.
Em uma área lateral da Secretaria de Ciência e Tecnologia de Humberto de Campos, o que deveria ser uma relíquia protegida e estudada jaz exposto ao relento, entregue à sanha do tempo, da ferrugem e do descaso institucional. A imponente peça central do resgate — o robusto trem de pouso de cerca de 5 toneladas —, que simbolizava a esperança de um novo polo cultural e turístico para a região, encontra-se ao ar livre, sem os devidos cuidados de preservação técnica ou museológica que uma peça metálica recuperada de manguezal e água salobra urgentemente exige.
O contraste entre o discurso oficial e a prática é estarrecedor. Onde estão a Ufma e a Prefeitura de Humberto de Campos? O mapeamento científico e a arqueologia subaquática e de manguezal não podem limitar-se aos holofotes midiáticos do momento da descoberta. Abandonar os destroços à margem de uma secretaria municipal, sem abrigo, sem curadoria e sem o andamento das pesquisas anunciadas, é perpetuar um segundo naufrágio — desta vez, moral e cultural.
A rota dos Aliados que transformou o litoral maranhense em um corredor aéreo estratégico em 1943 merece respeito. A memória dos seis soldados norte-americanos que pereceram naquele estrondo ouvido no povoado de Ilha Grande, bem como o esforço dos moradores que os sepultaram e, décadas depois, ajudaram a desenterrar a história, merecem honra, e não o ostracismo da negligência.
É urgente que o Ministério Público, os órgãos de proteção ao patrimônio histórico, a academia e a gestão municipal despertem desse marasmo. Um país que negligencia suas relíquias abrevia seu próprio futuro. O B-25 Mitchell não pode continuar a ser tratado como sucata esquecida na lama da burocracia e da incompetência administrativa. É preciso resgatar o bombardeiro do abandono antes que a ferrugem consuma de vez o que sobrou da nossa história.
*Historiador.
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