Posse na Academia Literária do Maranhão (Alma)

LUIZ GONZAGA MARTINS COELHO*
No último sábado, 1º de agosto de 2026, vivi um daqueles momentos que permanecerão gravados para sempre na memória e no coração. Tomei posse como membro efetivo da Academia Literária do Maranhão (Alma), passando a ocupar a Cadeira nº 37, cujo patrono é o ilustre escritor maranhense Antônio Lobo.
A solenidade representou muito mais do que um ato protocolar de investidura. Foi a celebração de uma caminhada construída ao longo de décadas, movida pelo apreço aos livros, pelo respeito à cultura e pela convicção de que a palavra encerra o extraordinário poder de transformar pessoas e sociedades.
Embora minha trajetória profissional tenha sido predominantemente dedicada ao Ministério Público, instituição à qual sirvo há mais de três décadas, jamais deixei de cultivar a literatura. Escrever sempre foi uma necessidade da alma. Nas crônicas, encontrei um espaço privilegiado para refletir sobre a vida, registrar acontecimentos e compartilhar inquietações do cotidiano.
Ingressar na Alma significa integrar uma instituição comprometida com a preservação, a valorização e a difusão do patrimônio literário e cultural do Maranhão — estado que, com justiça, ostenta a honrosa tradição de ser reconhecido como a terra de grandes escritores e título de Atenas Brasileira. Receber essa distinção impõe não apenas alegria, mas também o dever de honrar o legado daqueles que fizeram da palavra um instrumento de construção da identidade maranhense.
A cerimônia foi marcada por momentos de elevada sensibilidade. Os pronunciamentos proferidos, especialmente pelo presidente da Academia, confrade Luís Régis Furtado; e pelo orador oficial, confrade desembargador José de Ribamar Castro, transcenderam as formalidades protocolares e ofereceram profundas reflexões sobre o papel da literatura, da memória e da missão acadêmica. Suas palavras encontraram eco em todos os presentes e reafirmaram que uma Academia vive não apenas de seus livros, mas, sobretudo, dos valores que cultiva.
Os discursos que abrilhantaram a solenidade conferiram ainda maior densidade intelectual àquela noite memorável. O presidente da Alma, confrade Luís Régis Furtado, lembrou que a Academia não celebra apenas posses, mas renova um compromisso permanente com a literatura, a memória e a cultura, ressaltando que cada cadeira representa uma missão e que seus ocupantes são chamados a fazer da palavra um instrumento de esperança, de conhecimento e de transformação social. Na mesma direção, o orador oficial dos novos acadêmicos, desembargador José de Ribamar Castro, recordou que as academias literárias constituem verdadeiras guardiãs da memória cultural e da inteligência crítica, advertindo que, em tempos marcados pela velocidade das informações e pela efemeridade das relações humanas, cabe a essas instituições preservar aquilo que não pode sucumbir ao tempo: a cultura, o pensamento e os valores que sustentam a civilização. Ao término daquela noite memorável, permaneceu em todos a certeza de que a Academia Literária do Maranhão não é apenas um espaço destinado a reverenciar o passado, mas uma instituição vocacionada a iluminar o futuro, mantendo viva a chama da literatura maranhense e inspirando novas gerações de leitores e escritores.
A emoção ganhou contornos ainda mais especiais porque a posse coincidiu com uma data profundamente simbólica em minha vida familiar: o dia em que Emmanuelle e eu celebramos dezoito anos de casamento, as Bodas de Turquesa. Compartilhar esse momento ao lado de minha esposa, dos filhos, familiares e amigos transformou a solenidade em uma dupla celebração, reunindo o patrimônio afetivo da família e o patrimônio intelectual da literatura.
Registro, igualmente, minha gratidão aos confrades e confreiras pela acolhida fraterna, aos organizadores da cerimônia pela impecável condução dos trabalhos e a todos que, de perto ou de longe, manifestaram carinho, incentivo e alegria por essa conquista.
Assumir uma cadeira na Academia não representa um ponto de chegada. Ao contrário, inaugura uma nova etapa de responsabilidades. A imortalidade acadêmica não pertence ao indivíduo; pertence às ideias, aos valores e às obras que resistem ao tempo. Cabe a cada acadêmico contribuir para que essa chama permaneça acesa, iluminando as novas gerações.
Recebo essa honraria com humildade, gratidão e profundo senso de dever. Continuarei acreditando que as palavras podem construir pontes, despertar consciências, preservar memórias e inspirar esperança. Procurarei servir à literatura com a mesma dedicação com que sempre procurei servir à Justiça, certo de que ambas, cada qual a seu modo, existem para promover a dignidade humana e tornar a sociedade melhor.
Ao cruzar os umbrais da Academia Literária do Maranhão, renovo o compromisso de colocar minha pena a serviço da cultura, da memória e dos valores que edificam a nossa gente. Sei que esse compromisso não se esgota na honra da investidura; ele se renova a cada página escrita, a cada leitor alcançado e a cada esforço para preservar a riqueza cultural do Maranhão. E faço-o inspirado naquele que melhor soube traduzir, em versos eternos, o amor à terra maranhense e ao Brasil, Gonçalves Dias:
“Todos cantam sua terra,
Também vou cantar a minha;
Nas débeis cordas da lira
Hei de fazê-la rainha…”
Que esses versos sejam, doravante, também um compromisso de vida: continuar exaltando o Maranhão, sua história, sua cultura e seu povo, na esperança de que a literatura permaneça como uma das mais belas formas de eternizar a memória e engrandecer a alma humana, porque, afinal, a literatura é a arte de transformar palavras em eternidade.
*Promotor de Justiça, titular da 45ª Promotoria de Justiça Especializada da Infância e da Juventude do Termo Judiciário de São Luís-MA; ex-presidente da Associação do Ministério Público do Estado do Maranhão (Ampem); ex-procurador-geral de Justiça, titular da cadeira nº 11 da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam) e da cadeira nº 37 da Academia Literária do Maranhão (Alma).
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