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O brilho que cega!

OSMAR GOMES DOS SANTOS
Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís, Maranhão. É presidente da Academia Ludovicense de Letras (ALL) e membro das Academias Maranhense de Letras Jurídicas (AMLJ), da Academia Literária do Maranhão (ALMA) e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (AMCAL).

Viver sob o olhar da glória é algo deveras relativo. Trata-se de um fim que muitos buscam, poucos alcançam. Porém, de que glória estamos falando?

Se tomarmos como essência o termo glória, ele remete a renome, fama, esplendor conquistado por grandes feitos. Ainda assim, esse significado pode variar conforme o contexto.

Há quem sustente, inclusive à luz da sabedoria bíblica, que a glória somente se justifica quando acompanhada de honra. Ou seja, não deve ser o esplendor um fim em si mesmo; é preciso considerar e valorizar os meios.

Assim, quem contempla a glória estampada enxerga apenas uma fachada. Não percebe o esforço, os sinais de cansaço, as olheiras de quem atravessou a noite, tampouco a sola gasta de quem percorreu o árido deserto.

A própria glória, por vezes, ignora o processo, reduzindo-o a um rascunho irrelevante. Desconsidera o “quase”, o “talvez”, o “vamos tentar novamente”.

Eis o paradoxo: o resultado não existiria sem um caminho árduo. A glória depende do esforço, do suor, das lágrimas, das tentativas, dos erros, das falhas e até do fracasso.

Entretanto, revela-se soberba. Do alto de sua avareza, quando finalmente repousa o olhar sobre alguém, o mundo ao redor se apaga. Tudo se transforma em espelho, refletindo apenas a silhueta narcisista que convém ao instante.

Mesmo ignorando a caminhada, transmite um fardo pesado, que isola o agraciado, transformando-o em uma estátua admirada por todos, porém impedida de descer do pedestal.

Não permite que os intocáveis, revestidos por um brilho dourado, se igualem aos demais. Quem é alcançado pela glória precisa permanecer no altar, lugar de distinção, para ser admirado e valorizado.

O artista passa fome enquanto ela segue adiante. O escritor rascunha folhas soltas, e ela observa à distância.

Tempos depois, aproxima-se no auge. Quer chegar para ficar. Ajusta as lentes e exclama: “Como não vi isso antes?”

Trata-se de uma ironia cruel, que frequentemente chega tarde demais, como um tributo incapaz de aquecer o peito de quem partiu, servindo apenas para dar aos vivos a sensação de justiça cumprida.

Ignorou o processo, não percorreu a estrada, perdeu o caminho.

A glória também pode ser passageira, efêmera, instantânea. É a forma mais comum, presente nos célebres quinze minutos de fama, até que o olhar se distraia com novos devaneios, a cortina se feche e os aplausos sejam engolidos por um silêncio ensurdecedor.

É uma companhia inadequada para quem busca constância. Mostra-se infiel, voltando as costas àqueles que julga não merecedores.

Onde, então, reside a verdadeira glória? Talvez o equívoco esteja em procurá-la no exterior, submetida ao julgamento alheio, dependente do olhar do outro, quando, na realidade, pode não passar de ilusão.

Enquanto o mundo chama de glória o aplauso e a reverência, o olhar que realmente importa é aquele que trocamos com o espelho, às três da manhã, em meio às aflições e desventuras que sustentam nossa trajetória.

Se, nesse instante, formos capazes de sustentar o próprio olhar, conscientes de que o trabalho foi realizado com honestidade e paixão, então a glória já nos alcançou. E, diferentemente da glória mundana, essa não se desvia quando as luzes se apagam.

Eis por que não se deve buscar a glória por si só. É necessário propósito. Faz-se indispensável a integridade, a ética, alicerçadas em terreno firme. A honra sustenta o mérito; sem ela, a glória é vazia.

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