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Diálogo entre dois amigos delegados de polícia sobre as mídias nacionais

GUSTAVO MACHADO – Delegado de Polícia Civil do Maranhão. SEBASTIAO UCHOA – Advogado e delegado de Polícia Civil aposentado.

Resposta do amigo delegado Gustavo Machado, acerca do comportamento de algumas mídias telecomunicativas brasileiras, nesses últimos tempos, digna de uma difusão, a saber:

“Prezado amigo e irmão Sebastiao Uchoa,

Somos testemunhas de uma época no mínimo surreal e, assaltado por profundo desgosto, forço-me a acompanhar mais esse novo capítulo da tragédia na história de nosso Brasil e assim o faço porque, como bem sabes, vive em mim algo de rebeldia, dessa forma, dando continuidade às nossas breves, todavia prazerosas, conversas, entrego-te este ensaio reflexivo ao qual nomeio como: O Tamanho do Rabo do Gato e a Notícia.

Todo Estado moderno que anseia se chamar democrático necessariamente precisa se escorar na mídia em termos diretamente proporcionais ao aumento de poder que este mesmo Estado alcança perante seus cidadãos e, em paralelo, maior devem ser os meios para o exercício direto pela própria população de sua liberdade de expressão como forma de garantia direta contra eventuais desvios da própria mídia. Se não existe uma real democracia sem a mídia, tampouco pode ela existir sem o exercício direto da liberdade de expressão pelos interessados nesse sistema.

Colocando as coisas nestes termos, creio ser de todo pertinente, estando naquele terceiro grupo (interessados no sistema democrático) propor uma reflexão sobre o que talvez seja o cerne do que deveria ser o produto do jornalismo: a notícia. E nesta, no que se tem como valor-notícia e seus atributos: atualidade, proximidade, impacto, conflito, prominência, inusualidade, interesse, magnitude, novidade e etc. Desdobrando esta reflexão, ouso denunciar que, se estamos onde estamos, estamos porque lá atrás, um dos vértices do que deveria ser o equilátero (Estado, mídia e povo) falhou e, quando dizemos falhou, arriscamos o fazer ainda com o romantismo clássico e pueril de quem prodigamente distribui o benefício da dúvida e a presunção de inocência, quando o sentimento mais sincero partilhado por onde andamos é que não foi falha, mas sim oportuna e dolosa conivência.

A vida é um emaranhado de fatos sucessivos ou não, interpostos ou não, concatenados ou não: o rabo de um gato, a queda de uma árvore são fatos, são tão fatos quanto a reprodução de ratos ou a promiscuidade de autoridades públicas em uma engenharia financeira criativa, porém nem todos possuem o mesmo valor quando comparados entre si, ou quando comparados com similares de sua mesma categoria. O rabo de um gato que cresce junto com seu gato não tem o mesmo valor de notícia que o rabo de um gato cortado por jovens delinquentes – a queda de uma árvore no meio da mata em uma tempestade equatorial, não ressoa tanto quanto a derrubada de milhares de hectares em meio a uma área de preservação ambiental – o ciclo de reprodução de um rato de botica na soleira da casa de uma senhora aposentada sequer se compara a infestação de ratazanas a devorar todo o repositório de leis guardadas e deveriam ficar salvas no Arquivo Nacional.

Por uns bons anos na história bem recente do Brasil, a grande mídia profissional em sua parte expressiva empurrou diariamente ao povo destaques sobre: cartão de vacina, passeio de jet-ski e baleia, travessia de ponte sem capacete, traquejo social não refinado, um emaranhado sem fim de fatos (por vezes factoides) que, analisados à luz dos atributos do valor-notícia, em quase nada gabaritavam positivamente de modo a merecer sequer uma linha que fosse nas paragens sobre política e Estado. Assuntos que, apesar de eventual proximidade emocional por envolver pessoas de relevância política, não tinham em si polêmica, não tinham em si potencial de tocar a vida das pessoas, não versavam sobre algo de qualquer elevada magnitude, não eram algo fora do usual e nem geravam grandes consequências e, a despeito de não pontuar em nada, não só foram aceitos pelas direções jornalísticas, como, ainda, ecoaram por todo aquele ecossistema de modo coordenado, chegando ao cúmulo de, quando nada mais havia a ser dito, vinham a ser requentados, ferindo assim os atributos de atualidade e novidade… e sim, tenho que concordar com o amigo: “parecia um apelo ao absurdo…”

Esse fenômeno teve por consequência (óbvia) a perda da relevância da mídia como um dos vértices do equilátero, aquele que informa o povo, os interessados, daquilo que haveria de ser relevante quanto à fiscalização do bom andamento do Estado como um todo. Ela já não mais servia como mídia ao ser transformada em instrumento de marketing, propaganda.

Em sua grande parte, a tal mídia profissional estava dando destaque ao rabo do gato que não fora cortado por delinquentes, e nesta escolha os ratos passaram a proliferar e engordar enquanto corroíam não apenas aos cofres “públicos” como, ainda e sobretudo, a colcha constitucional de garantias fundamentais. E sem qualquer rubor, perante todos, um reconhecimento público, verbalizado, explícito de uma ministra de alta corte que afirmou que sim: tudo aquilo era uma medida de exceção! – O amigo chegou a cogitar que fora um entre tantos deslises, eu mesmo tenho uma reflexão que, de tão perturbadora, não consegui ainda deglutir.

Em paralelo a tudo isso, enquanto a “grande” mídia se apequenava, cresceu o poderio corrompido no âmago do Estado, e a população (interessada) se viu compelida a ela mesma ocupar parte do espaço que a mídia desperdiçou, sendo este o fenômeno das redes sociais – e sim, concordo com sua reflexão sobre serem rotas de buscas de informações que mais se aproximassem do real, já que as “fantasias de então”, já não mais convenciam as massas.

Porém, estando o poder estatal em um processo inflamatório, não podendo se dar por satisfeito com a automutilação feita pela mídia, como um glutão, voltou-se com olhos arregalados (invadindo indevidamente sigilos), boca salivante (desejoso de devorar desafetos), língua nervosa (repetindo discursos raivosos) e de talheres em punhos (todo instrumento de coerção estatal) para a população nas redes sociais, etiquetando-as de “fake news”, golpistas e outros termos desprovidos de conteúdo e significado, mas que calham a gerar apenas o efeito metonímico, ou seja, produção de um sentimento reflexo sem nexo com qualquer conteúdo semântico.

E hoje, fatos que efetivamente gabaritam em todos os atributos de um valor-notícia, quando caem no colo da mídia tradicional e esta tenta recolher dos esgotos os restos de sua credibilidade por anos desperdiçada, encontram não mais ratos de boticas nas soleiras da vovó, mas sim conglomerados estruturados de ratazanas que se banquetearam por anos com dinheiro sujo, relações promíscuas, “engenharias” criativas, triangulações encobertas e escamoteadas.

Gostaria muito de poder dizer que o problema seria esse: a grande mídia tem que enfrentar este Estado no estado das coisas que aí observamos, todavia, não existe “o” problema, não existe apenas um único problema, existe sim uma “situação” como toda problemática e a solução para ela passa por algo que muitos sentem aversão em verbalizar por questões de sequestro ideológico e esvaziamento de conteúdo da palavra: honestidade.

Honestidade em refletir sobre ser ou não importante haver uma real relação equilátera entre Estado, mídia e população, pois, sem o Estado estamos em anarquia – sem população estamos em tirania – sem a mídia estamos no fascismo. Honestidade em reconhecer que abusaram e desperdiçaram de sua posição por razões não jornalísticas. Honestidade em reconhecer que alimentaram as ratazanas que hoje aí estão, as mesmas ratazanas que se alimentaram das folhas onde estava o art. 5º da Constituição Federal e que vinha devorando as pernas, mãos… fígado da população e que hoje estão voltando sua atenção para devorar também a mídia. Honestidade para poder enfrentar junto com a população as ratazanas que estão no outro vértice. Honestidade em querer reparar os “equívocos” de uma paixão ideológica. Honestidade em aceitar que, se a população deseja um caminho, que não se deve recorrer a ratos e abusos, pois em uma democracia, os caminhos são escolhidos pela população.

E finalizo minha reflexão entendendo que, a quem possa interessar ou em quem a carapuça servir: é isso, apenas isso, do contrário voltem a falar da queda de uma goiaba madura no quintal de Dona Filomena; voltem a descaradamente querer temperar fatos com sabor artificial, barato e rançoso de polêmica, enquanto a população sozinha e enquanto pode verbaliza e denuncia com maior ou menor, melhor ou pior técnica, aquilo que realmente tem valor-notícia apesar dos riscos inerentes que tal meio traz em si”.

Gustavo Machado, delegado de Polícia Civil do Maranhão.

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