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O menino que desprezei

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA DE ALMEIDA
Corregedor-geral da Justiça
E-mail: [email protected]

O fato que vou narrar aqui, do qual fui o próprio protagonista, merece detida reflexão, porque tem a ver com empatia, solidariedade e sentimento de culpa.

Pois bem. Dia 30 do mês passado, por volta das 17h30, saí, como de costume, para fazer exercícios na Avenida Litorânea. Por volta das 18h30, encerradas as atividades, entrei no carro para retornar para casa. Assim que liguei o carro, fui surpreendido por um menino, de aproximadamente 12 anos, batendo no vidro, insistentemente; percebi que vendia balas.

Demorei um pouco para sair, enquanto conectava o bluetooth. Olhei para o menino sem lhe dar importância e me irritei com sua insistência em chamar a minha atenção. O garoto insistiu, e eu me fiz de besta, como se diz quando se age com indiferença. Confesso que o encarei com certo desprezo e segui viagem, para, depois, me dar conta, já a caminho de casa, que o rostinho dele traduzia um apelo que eu, tomado pela insensibilidade e falta de empatia, não valorizei.

Pelo retrovisor, vi-o retomar a caminhada, com a caixinha de balas debaixo do braço. Próximo ao famigerado “Bacabeirinha”, fui tomado por uma forte inquietação – uma sensação estranha se apoderou de mim –, acompanhada de um sentimento de revolta interior pela forma como desprezei o adolescente. Incomodado, com um certo sentimento de culpa, decidi retornar para me redimir do que considerei, no mínimo, uma descortesia.

Não tive dificuldades em encontrá-lo, afinal, tinha observado a direção que seguiu, na companhia de outro adolescente, do qual só me dei conta quando os vi pelo retrovisor do carro ao deixar a Litorânea. Encontrando-os, parei o carro, abaixei o vidro do lado do passageiro e os chamei. Os dois se aproximaram com um contagiante sorriso no rosto. O que carregava a caixa de guloseimas logo manifestou admiração pelo meu carro, para, com um sorriso afável, traduzir a sua admiração:

– Que carro lindo, tio! Disse, como que estupefato.

Prosseguiu com as observações, sempre com um afável sorriso emoldurado pelo rosto:

– Seu carro é muito limpo!

E foi adiante:

– Olha o tamanho dessa tela! Disse, chamando a atenção do colega que, igualmente atônito, arregalou os olhos, lançando um olhar de espanto em direção ao amigo, saindo com essa em seguida:

– Tio, que camisa linda! O senhor é surfista?

Como não sorrir de uma indagação dessas, sendo eu um senhor de 72 anos?

Dirigi-me, então, ao menino que vendia balas, o que desprezei na primeira tentativa de contato:

– Quero lhe ajudar. Você tem pix?

Ele respondeu que sim; mas do seu padrasto.

O outro, não se fez de rogado:

– O senhor vai me ajudar também?

Respondi:

– Claro que sim.

Em seguida, ansioso, completou:

– Quanto o senhor vai enviar?

Respondi:

– Tantos reais para cada um.

Arregalaram os olhos.

– Mas é muito, tio!

Eu disse:

– Não. Não é muito. Para vocês pode ser; para mim, não.

Enquanto tentava fazer o pix, o que vendia balas acrescentou, sem que eu perguntasse:

– Tou vendendo balas para ajudar na compra do material escolar. As aulas começam semana que vem e ainda não tenho nada.

Enquanto tentava acessar o aplicativo do banco, indaguei onde moravam. Responderam:

– Na Madre de Deus.

E acrescentaram:

– Viemos e vamos voltar a pé, porque não temos dinheiro para o transporte.

Pensei em levá-los em casa, mas decidi não fazê-lo, no entanto. Já era tarde e eu tinha compromisso às 19h30.

Um detalhe: eu, simplesmente, não acertei a senha do aplicativo do banco, pois havia trocado há poucos dias, por segurança. Mas anotei as chaves pix de ambos, e, chegando em casa, enviei a quantia prometida.

Esse fato pode não significar nada para muita gente. Para mim, nada obstante, significa muito, porque tem a ver, como anotei no preâmbulo, com empatia, solidariedade e culpa.

Sei que não resolvi os problemas daqueles meninos com a ajuda que enviei, afinal, o que eu pretendia mesmo era aliviar minha própria consciência, porque, nada justifica a minha reação inicial de desprezo diante de quem, depois percebi, merecia atenção, assim como muitos que desprezamos sem sequer lhes dar a oportunidade de se manifestarem.

É isso.

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