Carta aberta aos assessores/auxiliares da Corregedoria-Geral da Justiça

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA DE ALMEIDA
Corregedor-Geral da Justiça
E-mail: [email protected]
Hoje, vamos falar de despedidas.
A vida é feita de encontros e partidas. Cedo nos despedimos do colo materno — a mais dolorida de todas as separações. No meu caso, embora não tenha sido um habitué do regaço que dividia com meus irmãos, senti profundamente o pouco do que usufruí.
Despedimo-nos dos amigos de infância para, muito tempo depois, sentir, em um reencontro fortuito, que a conexão já não faz o mesmo sentido; já não toca o coração como antes, ainda que revivamos a saudade que outrora foi intensa.
Despedimo-nos de quem amamos quando a morte finalmente chega. Essa dor, que ainda não experimentei pessoalmente, já testemunhei em outras pessoas, concluindo o quanto é profunda.
Vivemos sob a eterna sensação da despedida, sobretudo quando aqueles ao nosso entorno envelhecem. A partida, que antes parecia longínqua, mostra-se agora logo ali, na próxima esquina, na curva seguinte.
Faço estas breves reflexões, porque, próximo de encerrar meu biênio à frente da Corregedoria-Geral de Justiça, tudo para mim ganha as cores da saudade, de despedida, que não será um “até logo”, pois cada um deverá seguir seu próprio destino, pois que, afinal, assim é a vida: marcada por encontros, desencontros e despedidas.
Sedimentamos relacionamentos, apegamo-nos às pessoas e chegamos a pensar, no início, equivocadamente, que a convivência será eterna — até nos depararmos com o fim iminente.
Após tudo o que vivemos, o que restará é a saudade; para mim, que sou sensível ao extremo, ela se apresentará lancinante, cortante, dolorida.
Confesso, no entanto, que, com a saudade já se apossando de mim, sinto enorme dificuldade em descrevê-la. Tentar fazê-lo é como o desafio de descrever o vento: impossível, inobstante o sintamos. Sentimos o vento, mas não o vemos. Não o vendo, assim como ocorre com a saudade, faltam-nos os contornos para uma descrição.
Da saudade, só sei dizer que dói e causa um aperto na garganta; sou, afinal, como todos sabem, marcadamente sensível.
A saudade será mais intensa quando eu me lembrar de nossas reuniões, nas quais discutíamos projetos com a mesma entrega com que sorríamos de tudo, como se a vida fosse uma grande festa; e era. Mas uma festa realizada em benefício do jurisdicionado, para o qual trabalhamos incessante e obsessivamente.
Vamos nos despedir, sim. Mas não esquecerei os mimos deixados sobre minha mesa, sempre acompanhados de bilhetes gentis, carinhosos, leais e, sobretudo, humanos.
Não esquecerei a expectativa de ver meus assessores entrarem, um a um, em minha sala, para compartilharmos uma conquista ou traçarmos a estratégia para um novo desafio.
Não esquecerei nossas “aventuras”: as viagens que fizemos juntos em busca de soluções, em cada comarca, que pudessem ajudar o cidadão, tornar sua vida um pouco melhor, enfim.
Não esquecerei que compartilhamos dores e inquietações em nosso afã de servir.
O mundo, entrementes, continuará girando. De mim restará, em um futuro próximo, apenas uma foto na galeria dos ex-corregedores. Nela, poder-se-ia gravar uma frase que sintetize quem sou: um homem que ousou sonhar e acreditar; que pensou em fazer o bem e encarou o poder com responsabilidade.
Nossa despedida vem em doses; cada dia, um dia a menos. Vivo a contagem regressiva para o inevitável.
Após o encerramento, virá a saudade que, em pessoas com a minha sensibilidade, será eterna — pois eternas também foram nossas realizações.
O Selo Diamante, o reconhecimento nacional do nosso Tribunal, é a materialização do que construímos.
A saudade será a tradução dos sentimentos que ficaram sem o teto da Corregedoria-Geral e que agora se abrigarão sob outro espaço: o da memória. Ela será maior por resultar da interrupção de um projeto que funcionou, fruto da sintonia entre magistrados e servidores comprometidos com a excelência.
Como lidamos com a Justiça, a despedida aqui ganha contornos de missão cumprida, somada ao vazio de quem deixa o front de batalha rumo a novos desafios.
Deixamos aqui nossa maior virtude: o reconhecimento de que, embora o trabalho jurídico seja técnico, sua execução é humana. Por isso erramos, acertamos, vibramos e nos abraçamos. E entregamos nossa alma para bem servir.
Trabalhamos como um só corpo, uma só mente.
Muitas vezes, um simples olhar de vocês era o aviso de que a “prosa” precisava mudar; um olhar, que substituía o documento escrito, representava, também, a vírgula que faltava ou o ponto de interrogação que me levava a refletir.
A saudade será imensa porque aprendi a conhecer a marca de cada auxiliar: a sensibilidade, a voluntariedade, a perspicácia, o destemor e a ponderação. Mas, fundamentalmente, testemunhei a lealdade e o cuidado que tiveram comigo, protegendo-me e aconselhando-me para que eu errasse o mínimo possível.
Meus assessores não foram apenas colaboradores; foram guardiões da minha lucidez.
A despedida, para mim, é como fechar um livro que ainda teria muitas páginas, mas cujo final antecipado não impede o reconhecimento de que a obra foi grandiosa.
O ciclo se encerra. As portas da Corregedoria agora se fecham para mim — não literalmente, decerto. Vocês seguirão seus caminhos; eu seguirei o meu. Vocês ainda têm muito a realizar; eu sinto que falta pouco para concluir minha trajetória. De cada um ficará uma lembrança, traduzida num detalhe, num abraço ou num afago.
Reafirma-se o que disse Antoine de Saint-Exupéry: “Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.
Espero que, nesta breve convivência, por meio dos meus discursos e da minha conduta, eu tenha ajudado vocês a refletir sobre a vida. Afinal, “nada do que vivemos tem sentido se não tocamos o coração das pessoas” (frase atribuída Cora Coralina).
É isso.
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