Prisioneiras do “amor”

OSMAR GOMES DOS SANTOS
Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA). Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão (Alma) e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (Amcal)
Refleti bastante sobre o que escrever e sobre como ocupar este espaço, nesta semana. Diante de novos acontecimentos de violência contra a mulher, proponho, mais uma vez, uma reflexão sobre o tema.
Decidi discorrer novamente sobre a temática após a agressão sofrida por uma enfermeira, no último fim de semana. Agressão, não. Tentativa de homicídio advinda de uma mente desequilibrada que, como já se tornou padrão, não aceitava o fim do relacionamento.
O título que trago é deveras provocante, pois remete ao argumento do covarde, que se baseia, em regra, no amor que diz sentir pela vítima para estabelecer um perímetro de dominação, um perigo que mistura o sentimento com a ideia de posse. Fórmula, no mínimo, trágica.
Amor? Que amor? O certo é que esse sentimento nunca existiu ou, há muito, ficou pelo caminho. Ou, ainda, transformou-se em um raso sentimento de posse, sustentado por uma cultura de dominação por parte do homem que acha que pode tudo.
O sentimento que se traduz em um cercado, que impõe limites à mulher e a impede de viver a própria vida, não pode ser amor. Quem assim pensa, certamente, abriga um sentimento que já se esvaiu ao longo dos anos de repressão.
Frente a uma enorme pressão física e psicológica, a situação tende a se agravar quando a mulher decide conquistar a sua liberdade. O amor doentio, aquele que aprisiona, recusa-se a aceitar o “não”.
Amor? Não. Na ótica do abusador, talvez. Para quem sofre a violência, é uma sentença que condena à prisão, sem data limite para o fim da pena, impondo condições e condutas a serem obedecidas, sob pena de se consumar uma ameaça ainda mais danosa.
Muitas vezes sem apoio, a mulher não vê qualquer saída para se livrar das algemas psicológicas. Por consequência, não vislumbra o fim de uma pena que paga por um dia ter acreditado no próprio conto de fadas.
Há que se questionar também todo um sistema, não apenas o da persecução penal, mas aquele que envolve o debate público, a educação e a reestruturação das famílias. Homem que é homem não agride uma mulher, e esse é um comportamento que se aprende.
Sozinha, fechada entre quatro paredes e sob uma nuvem obscura, a mulher não encontra forças e condena a si mesma, adotando uma atitude de conformismo e aceitação que parece trazer algum alento à alma.
O final feliz ficou para trás, nas páginas manchadas de gritos, insultos e agressões. Na mesma toada, esvaíram-se as juras de amor eterno, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe.
Morte, aliás, que temos como inevitável ao fim da caminhada, caso seja seguida a ordem natural. No entanto, para algumas mulheres, aprisionadas em um amor que não se explica, ela chega mais cedo.
Volto à questão inicial: amor? Que amor é esse que aprisiona, que maltrata, que faz chorar e sofrer? Que mata?
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