Resistiremos

OSMAR GOMES DOS SANTOS
Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA). Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão (Alma) e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (Amcal)
Em várias oportunidades, ocupei este canal de comunicação para falar sobre um mal que persiste: uma espécie de câncer social.
O racismo expõe a faceta mais cruel de uma sociedade ainda doente, corroída pelo vírus do preconceito, que parece incurável.
Indo direto ao ponto, nesta semana houve mais um episódio envolvendo o jogador Vinicius Junior. O caso, que envolve o atleta integrante do estrelado Real Madrid e presença constante na seleção brasileira, ganhou as manchetes de veículos de notícia mundo afora.
Não foi pelos dribles nos adversários nem pela excelente partida que realizou, o que nos desperta entusiasmo e otimismo para a Copa do Mundo que se anuncia. A discussão poderia girar em torno do golaço que marcou. Contudo, novamente, foram as ofensas racistas contra o atleta que marcaram a partida.
Na ocasião, após “balançar” as redes, Vini Jr. comemorou com a irreverência que caracteriza o futebol sul-americano, sobretudo o brasileiro: pulos, dança, descontração. Convenhamos, isso faz parte do universo do futebol.
Quem aprecia esse esporte e compreende seu espírito sabe que faz parte provocar o adversário e também ser provocado. Debater futebol nos mais diversos espaços da vida é algo comum.
Esse mesmo entusiasmo é levado para dentro de campo e extravasa em uma profusão de emoções no momento do gol. Desde que esteja dentro da essência do futebol, a comemoração não deve ser vista como desrespeito nem servir de pretexto para o início de agressões.
Portanto, não há sentido nem explicação plausível para as reações observadas, tampouco para que um jogador, com a boca coberta pela camisa, proferisse xingamentos contra Vini Jr., chamando-o de “mono”, em alusão literal a macaco, em razão da cor de sua pele.
As reações de Vinicius e de alguns colegas de clube que ouviram o insulto foram imediatas, como devem ser. E não adentrarei na discussão sobre “mimimi” de jogador mimado, como alguns querem fazer crer.
Preto, pobre e oriundo da periferia. Esses aspectos, por si sós, são suficientes para demonstrar que não há “mimimi” na trajetória desse jogador. Superar o bullying, a desconfiança e o preconceito, além de enfrentar o racismo estrutural em uma nação europeia, não é tarefa para quem é mimado.
A postura do jogador brasileiro, não apenas no último jogo, mas ao longo de toda a sua carreira, está corretíssima. Ele tem se posicionado firmemente contra toda forma de racismo, e assim deve continuar.
A maneira como o faz também é acertada. Ele fala para todos ouvirem, sem máscaras. Fala em campo ao árbitro, dirige-se aos seus agressores, manifesta-se em suas redes sociais e nas entrevistas. Siga falando, Vini, com a dignidade de quem se expressa de rosto descoberto, ao contrário dos covardes que precisam esconder a boca sob a camisa ou a mão para desferir seus ataques.
O que Vini Jr. revela ao mundo, cada vez que levanta a voz, é o retrato de um racismo estrutural que ainda predomina no seio de muitas famílias brancas e em parcelas de sociedades que carregam o germe da exploração.
Trata-se de um comportamento que se reproduz e atravessa gerações, como se fosse algo natural, como se ainda vivêssemos nos tempos obscuros da escravidão.
Quando o jogador se manifesta, não o faz para aparecer, como criticam alguns. Ele eleva o tom e dá voz a milhões de cidadãos negros em todo o mundo, diariamente massacrados, pisoteados e humilhados.
Ele exalta a negritude e o valor do povo negro. No caso do Brasil, representa o pedreiro, o gari, a cuidadora, a diarista. Representa também o ator negro para quem, muitas vezes, restam apenas papéis secundários de mordomo, empregada doméstica, motorista ou bandido.
As exceções confirmam a regra de uma sociedade em que o subemprego recai sobre aqueles que tiveram menos oportunidades e, por consequência, menos acesso aos estudos. Dentro dessa parcela, a maioria absoluta é composta por pessoas negras.
Vini dá voz à favela, a quem vem do gueto. Representa milhões de pessoas em todo o mundo, especialmente nos países ditos em desenvolvimento, nos quais os descendentes de pessoas escravizadas foram lançados à própria sorte.
Definitivamente, a atitude de Vinicius Junior não deve ser rechaçada, criticada ou condenada. Ao contrário, merece ser exaltada, refletida e apoiada. Precisamos, sim, discutir todas as formas de racismo que ainda persistem e lutar para debelar esse carma social.
Na ausência das correntes de metal, rompidas com o fim do regime escravocrata, pretende-se agora aprisionar psicologicamente a criatividade, a cultura, a tradição, a história, o talento e as habilidades que são inerentes a qualquer ser humano, independentemente de sua cor.
O cerne da questão é que a sociedade dita moderna parece não ter modernizado a própria mentalidade para aceitar as vitórias do preto e do favelado. Não admite que quem ontem foi servo possa, hoje, ser dono do próprio destino.
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