Um dia especial, que já faz parte das memórias

LUIZ THADEU NUNES E SILVA
Engenheiro Agrônomo, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.
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Na última segunda-feira, 09/02, tive a honra de receber, na Assembleia Legislativa do Maranhão, a medalha Manoel Beckmann, concedida pela deputada Andréia Resende. Esta medalha é a mais alta condecoração do legislativo do Estado.
Foi um desses momentos especiais em que pude reunir meus filhos, Rodrigo e Frederico, a nora, Ana Paula, familiares, amigos, confrades, confreiras, companheiros do Rotary Clube, colegas do Colégio Batista. Pessoas queridas que deixaram seus afazeres para me prestigiar em momentos que já fazem partes das boas memórias.
Abrilhantando o evento a banda de música do 24º BIS, sob a regência do tenente Fernando Freire.
A seguir, o discurso de agradecimento.
“Bom dia,
Deputada Andréia Martins Rezende, autora desta honraria,
Senhoras e senhores parlamentares, demais autoridades, familiares
amigos, companheiros de caminhada, colegas da Setur, confrades e confreiras, companheiros rotarianos, irmãos PCDs.
Agradeço ao Deus Vivo, Senhor de todas as coisas, por me guardar, e me trazer de tão longe, permitindo chegar até aqui, neste momento tão significativo. Chego com o coração pleno de gratidão, honra e emoção.
A gratidão é, para mim, a maior das virtudes. Bem-aventurados os que a carregam no coração.
Agradeço aos meus pais, Luiz Magno e Maria da Conceição, in memoriam, pelo dom da vida, pelos exemplos e pelo amor que me ensinaram. A eles devo minhas raízes. Agradeço aos meus filhos, Rodrigo e Frederico, meus maiores bens nesta terra, companheiros fiéis de caminhada. Agradeço à minha nora Ana Paula, por enriquecer nossa família com afeto e presença. Ao meu primeiro neto, Heitor, que vejo nele o prolongamento dos meus dias sobre a terra.
Recebo a Medalha Manuel Beckman com um sentimento grandioso e luminoso ao mesmo tempo — desses que se assentam fundo, como raiz que encontra água antiga. Esta honraria, a maior do Legislativo do Maranhão, não é apenas um reconhecimento pessoal: é um chamado à memória, à responsabilidade e à permanência.
Minha trajetória nasce do chão do Maranhão, esse solo que ensina resistência antes mesmo de ensinar direção. Como engenheiro agrônomo, aprendi que trabalhar a terra é trabalhar destinos humanos, e que nenhuma política floresce sem respeito à dignidade.
A vida, mestra exigente, decidiu interromper meus passos. Um acidente suspendeu meu corpo no tempo e me lançou numa longa estação de imobilidade. Houve silêncio. Houve medo. Noites densas. O futuro, por algum tempo, pareceu distante, chegou a desaparecer no horizonte.
Aprendi que o tempo não espera por nós. Passa descalço sobre os dias, sem ruído, sem promessa de regresso. Não se comove com as nossas dúvidas nem abranda diante dos medos que nos prendem. Enquanto pensamos, ele atravessa. Enquanto hesitamos, ele leva consigo um pedaço do que poderíamos ter sido. O tempo não se deixa segurar.
Não aceita mãos fechadas nem pedidos tardios. Não devolve instantes, não remenda escolhas, não repete o brilho exato de um momento vivido.
É rio em fuga, é vento sem morada, é luz que toca e parte.
O que nos resta é o agora, esse lugar frágil e precioso onde a vida ainda respira.
Após o acidente que sofri em julho de 2003, foi então que a esperança, essa forma madura da fé, se impôs. Descobri que caminhar não é apenas mover as pernas: é sustentar a vontade. Quando o corpo cessa, a alma precisa assumir o passo. E ela assumiu.
Hoje, com mobilidade reduzida, sigo caminhando apoiado em muletas. Elas deixaram de ser limite para se tornarem companheiras de jornada.
Com coragem e determinação, domei o medo, cruzei a soleira de casa e sai pelo mundo. Pisei em 162 países em todos os continentes da terra. Com muletas fiz travessia. Delas fiz asas. E, por um paradoxo generoso da vida, tornei-me viajante do mundo, levando comigo o Maranhão como identidade inegociável.
Em cada cidade, em cada fronteira, carrego São Luís do Maranhão — sua luz, sua memória, sua vocação para a palavra. Mesmo distante, continuo sendo filho desta aguerrida terra.
Aos 67 anos tornei-me jornalista. A escrita foi meu segundo corpo. Desde menino, foi nos livros da Biblioteca Benedito Leite, e nas páginas dos livros e das revistas que chegavam ao Sítio do Físico, que pertenceu ao meu avô, Joaquim Feliciano Silva, aprendi a viajar pela imaginação. Primeiro conheci o mundo através dos livros. Filho de educadora, formado no amor aos livros, encontrei na palavra meu modo de permanecer em movimento.
O livro “Das Muletas Fiz Asas” nasceu dessa travessia. Não é relato de dor, mas testemunho de superação. Como disse Jorge Luis Borges, quem realiza um sonho constrói uma parcela de sua própria eternidade. E sonhar sempre foi minha matéria-prima. Sonhar é destino dos vivos.
Nada disso teria sido possível sem o Deus Vivo — presença constante na minha, especialmente diante das tribulações, que me sustenta em todos os momentos. Um Deus que não promete atalhos, mas garante sentido.
Agradeço, ao querido poeta Rinaldo, que conheci através do amigo José Henrique Brandão, que me apresentou à deputada Andréia Rezende, e graças à sua sensibilidade e generosidade, estou hoje aqui a receber esta importante medalha.
Aos amigos, leitores e familiares, minha gratidão mais funda. São vocês que dão sentido à caminhada. Saio hoje desta Casa melhor do que entrei.
Às novas gerações, deixo uma palavra simples: não é a queda que define o destino, mas a coragem em continuar. Em ser resiliente diante das adversidades. O futuro pertence aos persistentes, aos teimosos, aos que não se abatem. “A vida é combate, que os fracos abate, Que os fortes, os bravos, Só pode exaltar”, cito Antonio Gonçalves Dias, nosso poeta maior.
Todos os dias a vida manda eu desistir, mas teimoso, desobedeço.
Recebo esta medalha não como ponto final, mas como marco de continuidade. Continuo caminhando — com consciência, esperança e Fé no Deus Vivo.
A vida é movimento, a caminhada se faz andando, vamos em frente.
Um brinde à essa coisa mágica, chamada VIDA.
Muito obrigado!”
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