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Três gigantes da Música Popular Maranhense

CARLOS AUGUSTO FURTADO MOREIRA*

A Música Popular Maranhense é um território vasto, fértil e profundamente identitário. Entre seus muitos expoentes, três nomes se destacam não apenas pela excelência artística, mas pela coerência ética, generosidade e compromisso com a cultura do Maranhão: Josias Sobrinho, Chiquinho França e Tutuca Viana.

Conheci cada um deles em momentos distintos, sempre em contextos ligados à Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam). Atendendo a convites para participarem de eventos literários, esses artistas levaram cada um a seu tempo ao público a magia de suas composições, promovendo um diálogo sensível entre música, literatura e memória cultural. Em todas essas ocasiões, ofereceram ao público não apenas suas obras, mas um gesto raro de desprendimento: abriram mão de seus cachês, movidos pelo amor à arte e pelo espírito de compartilhamento.

Josias Sobrinho, Chiquinho França e Tutuca Viana

Esse gesto, longe de ser banal, revela uma dimensão muitas vezes invisibilizada do fazer artístico: a vocação. Ainda que, como todo profissional, dependam de remuneração para sua subsistência, nesses artistas emerge uma convicção maior — a de que a arte, quando verdadeira, também é ato de resistência, generosidade e esperança. Esperança, sobretudo, de que o poder público reconheça, um dia, que a música produzida no Maranhão possui a mesma qualidade, densidade estética e relevância cultural daquela que, não raras vezes, é importada “a peso de ouro” de outros estados.

Foi após uma convivência mais próxima, em reuniões e projetos culturais, que essa percepção se consolidou. Ao serem convidados para integrar a 1ª Feira de Livros das Academias do Maranhão (Felicam), iniciativa da Amclam, aceitaram prontamente e, mais do que isso, contribuíram de forma ativa com ideias e propostas que enriqueceram a concepção do evento. A partir daí, o acompanhamento de suas trajetórias artísticas revelou uma produção musical plural, sofisticada e profundamente conectada às múltiplas identidades do Maranhão.

Chiquinho França apresenta um repertório vasto e instigante, com composições como Frevo Diminuto, Mr. Moto, Pegadas, Baixada, Chuva de Abril, Nossos Blues e Blues Legacy. Seu trabalho transita com naturalidade entre o frevo, o blues e o rock, incluindo vertentes como o psicodélico progressivo e o space rock, evocando experiências sonoras que dialogam com referências universais sem perder a marca autoral. Multi-instrumentista, domina violão, bandolim e guitarra, fundindo MPB com elementos do bumba-meu-boi, tambor de crioula, jazz, chorinho e pop rock. Quem ainda não ouviu seus solos de “Pink Floyd” não sabe o que está perdendo.

Josias Sobrinho, por sua vez, é um dos nomes centrais da Música Popular Maranhense. Compositor e intérprete de grande densidade poética, construiu uma obra que pode ser definida como um verdadeiro retrato sonoro do Maranhão, resultado da fusão entre ritmos folclóricos e uma estética urbana contemporânea. Canções como Dente de Ouro, Engenho de Flores e Catirina atravessam gerações, consolidando-se como referências da identidade musical maranhense e reafirmando sua posição como um dos compositores mais relevantes de sua geração.

Já Tutuca Viana revela uma abordagem refinada e sensível da música popular brasileira, com forte influência do samba, do baião e dos ritmos regionais do Maranhão. Compositor, cantor e instrumentista, explora gêneros como samba, samba-choro e samba-jazz, além de projetos que privilegiam a relação íntima entre voz e piano. Obras como Bença a João, Xote Opinião, Pra Navegar, Meu Samba Somos Nós, O Samba Não Tem Hora, Samba da Incerteza, Marchinha da Alvorada e Juçatuba confirmam sua maturidade artística e seu compromisso com a tradição e a inovação.

Portanto, celebrar Josias Sobrinho, Chiquinho França e Tutuca Viana é reconhecer que a grandeza cultural do Maranhão não está distante nem escondida. Ela vive, resiste e se renova na obra de artistas que transformam memória em som, identidade em canção e cultura em legado.

*Historiador, pesquisador, escritor e presidente da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam).

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