A grandeza cultural do Maranhão e os desafios do presente

CARLOS FURTADO*
Já registrei, em crônicas e artigos — e nunca é demais reiterar —, que o Maranhão vivencia um período singular e luminoso de sua história cultural. Trata-se de um tempo fecundo, em que a cultura se espraia em múltiplas formas, linguagens e expressões, materializando-se por meio de inúmeras personagens que, com dedicação e coragem, constroem e sustentam esse momento extraordinário.
Nesse vasto universo, as Academias de Letras — particularmente no campo literário, uma vez que existem instituições que adentram por outros campos — expandem-se de maneira exponencial, revelando uma quantidade verdadeiramente espetacular de literatos até então invisibilizados ou desconhecidos pela sociedade maranhense e brasileira. Paralelamente, as Academias Mistas, que congregam as ciências e as artes, afirmam-se como espaços vivos de produção intelectual e sensível. Soma-se a isso a força do cinema, da música, das artes plásticas, do teatro e das mais diversas manifestações culturais, todas a evidenciar a pujança criativa do Maranhão.
Em escritos anteriores, fiz questão de registrar que a Associação Maranhense de Escritores Independentes (Amei) constituiu — e continua a constituir — um marco histórico fundamental nesse processo. Sob a liderança visionária de José Antônio Viegas, a Amei, desde seus primórdios, catalisou a criação de diversas Academias de Letras e estimulou decisivamente escritores em todas as regiões do estado. Essas Academias floresceram, consolidaram-se e hoje ofertam uma gama expressiva de atividades, nas quais a criatividade, o ineditismo e o compromisso cultural são marcas permanentes.

De igual modo, a Academia Maranhense de Letras (AML) — o mais importante templo cultural do Maranhão e um dos mais respeitados do Brasil literário — inaugurou um novo e promissor ciclo sob a gestão de seu presidente, Lourival Serejo. Ao abrir suas portas para a realização de solenidades, encontros, lançamentos de livros e eventos protagonizados por Academias e Institutos Culturais desprovidos de sedes próprias, a AML reafirmou sua vocação maior: ser a casa de todos que pensam, produzem e difundem cultura.
Enquanto isso, órgãos e instituições públicas e privadas, sensíveis à relevância cultural, têm oportunizado às instituições e aos agentes independentes momentos de intensa atividade intelectual e artística, permitindo, por meio de seus gestores, o uso de auditórios, salas e espaços diversos. É impossível não reconhecer, nesse contexto, pessoas que fazem efetivamente a diferença: Aline do Nascimento, da Biblioteca Pública; Joseane Sousa, da Casa de Cultura Josué Montello; Eduardo Nicolau, do Ministério Público; Evangelina Noronha, da Fundação Sousândrade; Leuzinete Pereira, da Escola de Governo; Maurício Feijó, da Fecomércio; Amélia Cunha, do Museu Histórico e Geográfico; Uimar Júnior, da Galeria Trapiche; Carlos Soares, da Ampem; Carlos Nina, do Lítero; além de prefeitos municipais que, em suas gestões atuais ou pretéritas, compreenderam a importância do acolhimento cultural. Evidentemente, muitos outros gestores também abrem portas e corações a escritores, poetas, artistas plásticos, cantores, compositores e músicos, contribuindo, decisivamente, para a disseminação cultural neste recanto do Brasil — a eterna Athenas Brasileira.
Papel igualmente significativo exercem aqueles que se dedicam à divulgação de obras e espetáculos. Nesse mister, destacam-se Wellington Rabello, Walkir Marinho e alguns poucos blogueiros que, de forma gratuita e abnegada, difundem a cultura, conscientes de seu relevante papel social. Em âmbito nacional, o maranhense Mhário Lincoln ocupa posição preponderante, seja por meio de críticas construtivas e impulsionadoras, seja pela apresentação de novos talentos, pelo reconhecimento de trajetórias e pela ampla divulgação de produções culturais, com especial atenção aos maranhenses, sem jamais perder a dimensão nacional de sua atuação.
Em contraste com essa vitalidade cultural, é lamentável registrar que os gestores estadual e da capital maranhense têm priorizado, quase exclusivamente, as grandes festas populares — o carnaval e o período junino. Até aí, tudo bem. Ocorre que investem cifras elevadas na contratação de artistas nacionais, em contrapartida, os artistas populares maranhenses recebem cachês irrisórios, incompatíveis com sua importância cultural e simbólica.
As Academias, por sua vez, permanecem relegadas ao esquecimento. Mesmo com leis já aprovadas, que lhes possibilitariam arcar com despesas mínimas de funcionamento, seguem inoperantes, à espera de regulamentações e da devida inclusão nas leis orçamentárias.
Ainda assim, apesar da escassez de apoio institucional, os fazedores de cultura — amparados por aqueles que idealizam, organizam e promovem eventos culturais — seguem firmes em sua missão. Persistem, resistem e criam, sem perder a esperança de que novos ventos soprem, despertando consciências e inaugurando um novo tempo para a cultura maranhense.
*Fazedor de cultura, presidente da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam).
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