A arte de estar consigo mesmo

RUY PALHANO
Psiquiatra, membro da Academia Maranhense de Medicina e Doutor Honoris Causa – Ciências da Saúde – EBWU (Flórida EUA).
O fato de estar consigo mesmo virou arte, imaginem! Conviver consigo mesmo talvez seja uma das tarefas mais complexas, silenciosas e decisivas da condição humana. Somos treinados desde cedo para olhar para fora: compreender o outro, adaptar-nos ao mundo, buscar aprovação, negociar afetos, conquistar espaço social. Porém, quase ninguém nos prepara para o exercício inverso, qual seja, o retorno a nós mesmos, essa espécie de morada interior onde residem nossas fragilidades, tensões, dúvidas e esperanças. A convivência interna é essencial para a maturidade afetiva e psicológica, mas permanece como uma habilidade negligenciada, quase clandestina, na formação de qualquer ser humano.
O paradoxo é evidente: precisamos dos outros para viver, crescer, aprender e amar. A sociabilidade humana é o eixo da sobrevivência e do desenvolvimento. No entanto, também precisamos — e de modo igualmente vital — da capacidade de permanecer a sós com nossos pensamentos, suportar nossas angústias, interpretar nossas sombras e decifrar nossos silêncios. “O homem é, ao mesmo tempo, um ser que vive com os outros e um ser que nunca escapa de si”, dizia Kierkegaard. Negar qualquer uma dessas dimensões nos mutila.
A solidão exterior é simples de compreender: é a ausência de companhia. A solidão interior, porém, é mais complexa: ela diz respeito à ausência de si mesmo. É comum encontrarmos pessoas cercadas de amigos, familiares e admiradores que, paradoxalmente, estão exiladas de si, estrangeiras dentro da própria vida. É esse exílio interior que provoca sensação de vazio profundo, inquietação constante e dificuldade em sustentar a própria existência sem a muleta da presença alheia.
Conviver consigo mesmo exige coragem. Exige enfrentar aquilo que Pascal chamava de “o desassossego humano”, essa tendência de fugir de qualquer silêncio que nos obrigue a olhar para nossas contradições. Para muitos, qualquer pausa é ameaçadora porque desvela aquilo que se tenta esconder. Doravante, a autoconvivência é o contrário dessa fuga: é o exercício maduro de habitar-se, de suportar-se, de reconhecer-se como um companheiro possível — e não como um inimigo.
A escola, a família e até mesmo a religião, frequentemente, não orientam esse olhar interior. Formam-se indivíduos para competir, produzir, obedecer e corresponder, mas raramente para se compreender. Não se ensina a lidar com frustrações, medos, perdas, raivas, invejas, dúvidas, inseguranças. E assim surgem adultos incapazes de suportar o próprio pensamento ou de tolerar sua própria solitude. Buscam nos outros aquilo que não encontraram em si.
Estar consigo mesmo, no entanto, não é isolamento nem renúncia às relações humanas. É, paradoxalmente, o que permite relacionar-se melhor. Nietzsche dizia que “é preciso saber ser só para estar com os outros sem se sufocar”. A autoconvivência fortalece a autonomia emocional, permite avaliar melhor as intenções alheias, reduz a dependência afetiva e amplia a capacidade de amar sem anular-se. Quem se conhece menos exige demais; quem se conhece mais precisa menos.
A convivência interna também exige maturidade para interpretar o próprio sofrimento. Sofremos porque nos comparamos, porque desejamos, porque idealizamos, porque fantasiamos vidas que não existem. Estar consigo permite depurar esses impulsos, compreendê-los e amadurecê-los. É o processo pelo qual o sujeito se torna responsável por sua própria biografia — e não refém emocional daqueles que o cercam.
Outro ponto fundamental é que a autoconvivência é um exercício contínuo, nunca concluído. Não há ponto de chegada. O homem não é estático, é fluxo, mudança, inquietação permanente. Portanto, conhecer-se e suportar-se é uma tarefa que deve acompanhar toda a vida. Como dizia Heráclito, “ninguém entra duas vezes no mesmo rio” — assim como ninguém encontra duas vezes o mesmo eu. Nosso interior também muda com o tempo, e exige revisitação permanente.
A autoconvivência também nos ensina a dialogar com as nossas sombras. Freud mostrava que muito do que rejeitamos em nós retorna como sintoma, culpa ou angústia. Estar consigo é, também, aprender a conviver com aquilo que nos causa vergonha, medo ou desconforto. É abrir espaço para a sombra sem permitir que ela governe. É reconhecer a humanidade dessa parte obscura que nos constitui.
Essa convivência profunda consigo mesmo permite que o sujeito descubra uma forma de liberdade diferente da liberdade exterior. É a liberdade interior, descrita por Viktor Frankl: a liberdade de escolher a atitude diante da própria vida, mesmo diante do sofrimento inevitável. Essa liberdade não depende de circunstâncias externas, mas de uma arquitetura interna construída ao longo dos anos na relação consigo.
Além disso, a autoconvivência é a base do pensamento crítico. Quem não se suporta não pensa; apenas reage. Quem não se escuta acaba sendo conduzido pelos ruídos externos. A interioridade cria um espaço de reflexão silenciosa onde decisões podem ser tomadas com serenidade, e não sob o impulso ou sob a influência dos outros. O homem que pensa é, antes de tudo, o homem que consegue estar consigo.
A vida moderna, entretanto, torna esse exercício cada vez mais difícil. O excesso de estímulos, telas, demandas e expectativas impede o silêncio e provoca uma dependência do olhar externo. A hiperconectividade produz hiper vulnerabilidade. Quanto mais se vive para fora, menos se reside dentro de si. O indivíduo moderno tornou-se um exilado de seu interior, sempre correndo para evitar o encontro consigo mesmo.
Finalmente, conviver consigo mesmo é aceitar a própria imperfeição. É perceber que somos feitos de ambiguidades, fragilidades, medos, grandezas e contradições. É acolher essa complexidade e, paradoxalmente, encontrar ali a verdadeira paz possível. Como dizia Montaigne, “a maior coisa do mundo é saber pertencer a si mesmo”. Quem se pertence não teme a solidão; teme, isso sim, perder sua própria integridade.
Assim, a autoconvivência é uma virtude silenciosa, exigente e profundamente humana. É o fundamento da maturidade psicológica, da serenidade emocional e da autenticidade existencial. Não se trata de gosto pela solidão, mas de capacidade de estar inteiro — na presença do outro e na presença de si. O homem que sabe estar consigo não está sozinho: está habitado.
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