A ilusão da infalibilidade: quando o orgulho nos cega

JOSÉ LUIZ OLIVEIRA DE ALMEIDA
Corregedor-geral da Justiça
E-mail: [email protected]
Dia desses assisti a uma entrevista com Ralf, da agora desfeita – definitivamente – dupla com Chrystian, no Podcast de Eduardo Piunti, o qual, dentre outras coisas, para minha inquietação/reflexão, afirmou:
– Eu não erro, cara, você está sendo pago para isso. Então, como é que você pode errar? Não, você não pode errar. Eu nunca errei. Eu fui um vocalista que nunca errou, cara. Por quê? Porque eu tinha atenção e presteza em atender. Você tem que ser prestativo. Você tem que ser bravo com as coisas que você faz, entendeu? Eu sou extremamente caxias. Tudo que eu faço tem que ser perfeito e me cobro muito e sofro muito por isso.
Essa afirmação do sertanejo de se considerar infalível me levou a essas reflexões.
E por que fui instado a pensar sobre o que disse Ralf?
Porque entendo que a crença na própria infalibilidade, embora muitos não percebam, é uma armadilha perigosa, especialmente entre os que ocupam posições de poder ou se consideram superiores.
A propósito, a história está repleta de exemplos de ações de pessoas que se julgavam infalíveis e que, por pensarem e agirem assim, erraram feio, para, no mesmo passo, caírem em desgraça – e em descrença –, exatamente por sentirem superiores, olvidando-se de sua condição de ser humano, que os levou a cometer os erros em razão dos quais se julgavam infensos.
O erro é humano, é o apotegma. Quanto a isso não se tem dúvidas. Nesse sentido, e por óbvio, o erro é uma parte natural da condição humana, razão pela qual ninguém está imune à falha, ainda que se imagine acima do bem e do mal.
Afirmar, como fez o sertanejo Ralf, que nunca erra, é pura arrogância, que, em sua feição mais perversa, leva as pessoas a se considerarem infalíveis, tornando-as cegas diante dos seus próprios erros.
A crença na infalibilidade é ainda mais grave e perigosa quando quem se julga infalível exerce o poder, pois que, foi pensando assim, que grandes líderes levaram nações a se envolverem em contendas graves e desnecessárias, que poderiam ter sido evitadas, como se deu, por exemplo, com a invasão da Baía dos Porcos pelos Estados Unidos, que subestimaram completamente a reação cubana, cujo erro estratégico se transformou em humilhação internacional, ou noutro giro, como ocorre, até os dias atuais, com os erros judiciais, que resultam na condenação de inocentes à morte ou a décadas de prisão, com base em testemunhos falsos, preconceitos e investigações mal conduzidas (como no caso dos Irmãos Naves, de triste memória), ou, ainda, como mostram casos documentados de erros médicos, com a amputação, por exemplo, de membros saudáveis ou a realização de cirurgias em pacientes errados, resultantes de falhas básicas de checagem.
Cito esses exemplos, vindos ao acaso na minha mente, apenas para reafirmar que precisamos ser humildes, que precisamos acreditar em nossa falibilidade e que a crença de que não erramos não é boa conselheira, sobretudo, repito, se se trata de quem detêm o poder e decidem sobre a vida das pessoas e a sorte das nações.
A admissão do erro é um sinal de força, não de fraqueza. Por pensar assim é que tenho, humildemente, admitido meus erros, que foram muitos na minha trajetória, muitos dos quais foram corrigidos a tempo e hora.
Reconhecer a própria falibilidade é o primeiro passo para aprender e crescer, pouco importando a idade, pois há, sim, os que envelhecem, mas não aprendem com os erros que cometem, muitos dos quais, como sói correr, poderiam ter sido evitados.
A mensagem que deixo com essas reflexões é que sejamos humildes, independentemente de nossa posição social, para que possamos reconhecer nossos erros enquanto é tempo, evitando que eles se repitam.
A dica final, e mais atual, é: o erro é uma prova de que não somos algoritmos. Nossa “imperfeição” é o que nos diferencia da inteligência artificial.
É isso.
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