Morre-se para viver

RUY PALHANO
Psiquiatra, membro da Academia Maranhense de Medicina e Doutor Honoris Causa – Ciências da Saúde – EBWU (Flórida EUA).
Há uma crença antiga, profundamente antiga e arraigada no senso comum e disseminada no imaginário coletivo, de que a morte seria o oposto da vida, contrário à vida, como se fossem dois reinos separados, distintos, dois princípios adversários, duas forças em guerra. Essa crença, repetida por séculos, sedimentou uma pedagogia emocional, cultural e equivocada que nos ensina a “temer a morte, como se ela fosse uma espécie de aniquilação do real”, algo diabólico que temos que correr dela.
A morte, nessa perspectiva, aparece como ruptura absoluta, como falência do sentido, como derrota final. E, por isso, a cultura aproveita esta oportunidade e vai ensinando e consolidando tais crenças, de modo quase automático, que viver é afirmar, e morrer é negar ou acabar. Entretanto, quando se observa a vida em sua dinâmica concreta, biológica sistêmica, esse dualismo começa a se dissolver.
A vida não é um bloco imóvel hermético, nem um objeto que se possui, ela é fluxo, reorganização, metabolismo, troca, adaptação e fundamentalmente sentido. Viver é mudar de forma permanente, o tempo inteiro, em intensidades diferentes, em escalas diferentes, sem interrupção do microscópico ao biográfico. E, se viver é reorganizar-se, então a morte, longe de ser um inimigo externo, aparece como um dos recursos naturais internos da própria vida, para manter sua continuidade.
É nesse ponto que a perspectiva biofilosófica, doutrina que venho desenvolvendo há anos, se impõe como correção profunda de rota. A morte, sob essa lente, não é “o contrário” da vida, é uma função do vivo dentro do grande movimento da vida. A morte é um mecanismo magnífico de renovação, um modo pelo qual a organização se atualiza, substitui o gasto, depura o que não serve mais, abre espaço para o novo arranjo, buscando consolidar seu sentido. Quando eu digo “morre-se para viver”, não estou fazendo poesia ou texto literário para suavizar o inevitável, estou descrevendo uma lógica estrutural e funcional do real.
A primeira verdade impura disseminada é a ideia de que a morte seria uma espécie de erro da natureza. Como se fosse uma falha do projeto, uma interrupção indevida, um defeito do sistema. Mas a natureza não trabalha com essa moralidade infantil ou abstrata do “certo e errado”, aplicada ao fluxo biológico. A finitude não é falha, é arquitetura, renovação, porque sistemas vivos, para permanecerem vivos, precisam de ciclos, de poda, de substituição, de descarte, de transformação permanente. A permanência absoluta seria, paradoxalmente, a morte do processo.
A segunda verdade impura é tratar a morte como vazio. Quando se afirma que morrer é “virar nada”, costuma-se confundir forma com processo. A forma individual termina, sim, e isso é incontornável, mas o processo vital não se reduz à forma que o hospeda por um período. A forma se encerra, o fluxo se redistribui, e essa redistribuição não é um consolo, é um princípio material e sistêmico. Na natureza, nada é simples desaparecimento, é rearranjo de matéria, energia e informação biológica em novas configurações.
A terceira distorção é imaginar que vida e morte ocupam tempos separados, como se primeiro fosse vida, depois morte, e não houvesse diálogo entre elas. A realidade é mais sutil. A morte não entra apenas no final, ela opera ao longo do caminho, como critério de manutenção do vivo. O organismo vive porque sabe encerrar, células que precisam encerrar, conexões que precisam ser podadas, respostas que precisam ser interrompidas, processos que precisam ser desligados para que outros sejam ligados. A vida, para não colapsar, aprende a terminar.
No plano microscópico isso é evidente. Tecidos vivem em equilíbrio porque há renovação constante e permanente, há substituição, há remoção do que está danificado, velho, inadequado, disfuncional ou perigoso. Quando uma célula deixa de funcionar corretamente, seu encerramento protege o conjunto, evita desorganização, preserva a integridade do tecido. A morte celular não é tragédia, é higiene do vivo, é uma disciplina biológica que sustenta a harmonia do todo. Se nenhuma célula morresse, o corpo não manteria forma, nem função, nem estabilidade.
No plano macroscópico, o princípio permanece, ainda que nos doa mais. O indivíduo morre, mas a vida não cessa como fenômeno, ela continua como tecido social, como memória, como descendência, como legado, como consequência. Ainda assim, a dor humana é real, e não deve ser negada, porque há diferença entre compreender a lógica do vivo e suportar o corte afetivo. Saber que a morte sustenta a vida não impede a ferida, apenas impede que a ferida vire uma filosofia de desespero.
E por que sentimos tanto a morte, se ela é natural? Por que o humano não vive apenas biologicamente, vive simbolicamente. Perdemos não só a presença física, perdemos relações rotinas, histórias, promessas, futuros imaginados, lugares internos que aquela pessoa ocupava em nós. O luto é a reorganização de um mundo interno, é a tentativa de reconfigurar o mapa afetivo depois que um ponto estruturante foi retirado. No fundo, o luto é um trabalho de reconstrução, e reconstruir dói.
Essa dor também nasce do fato de que somos seres de vínculo. A vida humana não é uma vida isolada, ela é uma vida costurada em relações, desde o nascimento. Quando um amigo morre, não morre apenas um corpo, morre uma parte da nossa identidade relacional, morre um espelho, morre um capítulo do nosso próprio enredo. Perder alguém é perder um “nós”, é perder um modo de ser no mundo que só existia naquela interação. Por isso, a morte nos abala em profundidade, ela mexe na estrutura, não apenas no sentimento.
O erro cultural, porém, é transformar essa dor em prova de que a morte é inimiga da vida. A dor é prova de amor, de vínculo, de significado, não é prova de que o processo é antinatural. Pelo contrário, a dor confirma que a vida foi verdadeira, que houve presença, que houve valor. A dor não desmente a natureza, ela revela o humano, e o humano é o lugar onde a biologia encontra o sentido.
Sob a perspectiva biofilosófica, então, a morte deixa de ser a “negação da vida” e passa a ser entendida como passagem de organização ou etapa de transformação. Não é um elogio ingênuo da morte, nem uma tentativa de romantizá-la. É a afirmação de que a vida, para continuar com sentido, precisa de encerramentos, precisa de transformações, precisa de limites. Morrer não é sinônimo de perder a vida, é sinônimo de permitir que a vida prossiga, em outras formas, em outras composições.
No fim, “morre-se para viver” não é um slogan, é uma chave ontológica e existencial. Ele nos recoloca diante da realidade com maturidade, tira a morte do campo do tabu, e a recoloca no campo da função. E, ao fazer isso, não nos torna frios, insensíveis ao contrário, nos torna mais responsáveis com o tempo, mais presentes no vínculo, mais atentos ao valor do instante. A morte não é o oposto da vida, é um dos seus operadores, um dos seus mais importantes fundamentos, e compreender isso não elimina a saudade, a dor da separação, mas pode devolver dignidade ao ciclo que sustenta tudo o que vive.
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