Um passeio pela Ilha do Amor

LUIZ THADEU NUNES E SILVA
Engenheiro Agrônomo, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.
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Todos os anos, no primeiro dia de janeiro, apanhava papai para passear pela cidade. Ele adorava. Já no final da vida, debilitado, um passeio pela Ilha do Amor era bálsamo para sua alma. Luiz Magno, meu pai, era de bem com a vida, sempre bem humorado, e na data de seu aniversário, 1° de janeiro, ele sempre dizia: “Ninguém é mais festejado do que eu, basta olhar para os céus, fogos de artifícios por toda parte, brindando a vida, a minha vida”.
Com ótima memória, no passeio pela cidade, uma lembrança a cada esquina. Lembrança de pessoas com quem conviveu, lembranças de fatos hilários vividos por ele, ou apenas testemunhado. Seus olhos, como caleidoscópio, atualizava o passado, transmitindo a mim, ouvinte atento, fatos dispersos na poeira do tempo.

Luiz Magno faleceu em janeiro de 2015, aos 84 anos, deixando um legado de alegria e sabedoria. Quando um velho morre, é como se uma biblioteca se fechasse. Perdemos muito. Quantas vezes me pego querendo saber de um fato, ou de uma pessoa, que meu pai tão bem conhecia. Minhas perguntas não obtêm resposta.
Neste 1° janeiro, sem meu pai, tive a ideia de telefonar para uma amiga querida, Antônia Lima Oliveira, minha professora de Ecologia e Agriculta na Escola de Agronomia no Campus da Uema.
Aos 85 anos, professora Toinha, como carinhosamente a chamamos, é um exemplo de pessoa de bem com a vida. Assim como meu pai, Toinha tem a alegria de viver.
Morando só, lhe liguei para saber se queria dar um passeio pela orla e o Centro Histórico de nossa cidade.
– Claro, respondeu de pronto.
Fui buscá-la no horário combinado, e saímos a flanar por uma São Luís deserta, ainda em ressaca pelo réveillon da véspera.
Em manhã de céu azul e mormaço, passamos por diferentes lugares com sobras das festas da virada do ano espalhadas pelo chão. O melhor deste raiar de um novo ano é beber na sabedoria da antiga e sempre mestra Antônia. Solteira, sem filhos, morando só, Toinha tem projetos de vida: quer abrir uma escola para adolescentes, que ainda não sabe se será “primário ou ginásio”, coisas do século passado que ficaram registradas em sua mente.
Seus olhos brilham ao contar de sua vontade de fazer “um inventário das folhagens existente na Ilha”. À frente de seu tempo, professora Antônia fez mestrado, nos anos 80, quando isso tinha muitas dificuldades.
Antiga moradora do centro da cidade, – morava em frente ao mar, na Avenida Beira-Mar, ao chegarmos ao Centro Histórico, seus olhos irradiavam alegria, contentamento, felicidade.
– Luiz Thadeu, amo tudo isso, que coisa linda. Tive convite para lecionar em outras cidades, mas nunca me passou pela cabeça deixar essa ilha maravilhosa. Amo tudo isso. 0
Passear com a mestra Antonia Lima Oliveira, compartilhar de sua alegria energia neste primeiro dia de janeiro de 2026, é presságio de um ano inspirador.
Desde menino, tive próximo dos mais velhos, e com eles aprendi muito. Já velho, continuo aprendendo. Esse passeio com Toinha foi como se tivesse me conectado com meu velho é saudoso pai.
Envelhecer é a coisa mais poética do mundo: até os olhos ficam entre aspas. Deve ser por que entre a infância e a velhice há um instante chamado vida.
Tudo na vida tem seu tempo. As conquistas que celebramos, as relações que construímos, as alegrias que nos elevam. A verdadeira beleza da vida está em valorizar o presente, dar significado ao que importa e deixar o que não faz sentido ir embora. Aprender com cada experiência é o que nos fortalece.
Afinal, o mais importante não é no que temos ou onde estamos, mas quem escolhemos ser diante de cada capítulo que vivemos.
Caro leitor, amiga leitora, desejo um 2026 pleno de realizações, conquistas e vitórias.
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