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Somos todos fortes, apesar de nós mesmos

RUY PALHANO
Psiquiatra, membro da Academia Maranhense de Medicina e Doutor Honoris Causa – Ciências da Saúde – EBWU (Flórida EUA).

Na virada do ano, quando a vida parece fazer uma pausa para que a memória respire, há uma ideia que merece ser recolocada no centro do pensamento: antes de qualquer currículo, antes de qualquer título, antes de qualquer aplauso ou esquecimento social, cada um de nós já é o resultado de uma vitória.

Não no sentido vaidoso do termo — como quem se acredita-se
superior, mas no sentido biológico e existencial: estamos aqui porque a própria vida, em nós, atravessou um caminho complexo de seleção, esforço, persistência e continuidade. Há, na origem de cada pessoa, um “sim da vida”, que não é romântico nem poético apenas, mas estrutural: a vida insiste.

Quando se observa a cena primal da reprodução humana, não como espetáculo de “heroísmo” barato, mas como realidade orgânica, percebe-se que a existência começa sob o signo do atravessamento, da luta e dos desafios. Desde o primeiro instante em que as células reprodutivas entram em jogo (espermatozóide e óvulo), há um percurso que envolve enormes obstáculos, perdas, disputa, tempo, direção e resistência.

Milhares de possibilidades não chegam; poucas avançam; e, ainda assim, a vida não se detém. Isso não serve para humilhar quem sofre, nem para reduzir a complexidade do humano a uma metáfora simplista de “força”. Serve, isto sim, para lembrar um fundamento: a vida, por natureza, não é uma estrutura frágil; é uma arquitetura de persistência e perseverança a serem trilhados.

Essa constatação tem um alcance ético profundo. Porque a modernidade nos ensinou a medir valor por desempenho, por aparência, por produtividade, por “resultado” social. E, assim, o sujeito passa a sentir que só tem direito a existir quando vence no palco destas famigeradas comparações.

Mas há um erro de base: o valor humano não nasce do palco; nasce do fato de estar vivo. A vida não “concede” existência como prêmio; ela se organiza para sustentar a continuidade. Você não é um acidente sem sentido; você é uma continuidade que atravessou camadas, filtros, riscos e contingências altamente desafiadoras.

Na linguagem da biofilosofia, doutrina que venho propondo ultimamente, cada ser humano é uma emergência complexa: uma forma viva que se constituiu por etapas, como tudo o que é vital. O corpo é uma história: células que se coordenam, tecidos que cooperam, sistemas que regulam, limites que protegem, ritmos que se alternam, reparos que se acionam.

A vida não se mantém por força bruta, mas por inteligência orgânica: autorregulação, adaptação, economia, redundância, correção de rumo. E isso vale também para a dimensão psíquica: o sujeito é um sistema que tenta manter sentido em meio às pressões, às perdas, às frustrações, às exigências do mundo.

É por isso que a ideia de “fraqueza humana” precisa ser tratada com rigor. Há pessoas que se sentem fracas, acabadas, sem valor há pessoas que se percebem insuficientes, há pessoas que fazem uma avaliação ruim de si mesmas, se depreciam por dentro com uma crueldade que nenhum inimigo externo conseguiria manter por tanto tempo.

Mas sentir-se fraco não prova que se é fraco. Frequentemente, prova apenas que a pessoa está em sofrimento — e sofrimento distorce a leitura de si mesma, estreita o horizonte, sabota o futuro, quebra a confiança no próprio valor. Uma mente em dor não é um tribunal confiável sobre a dignidade de ninguém.

O que proponho, ao lembrar a “batalha” inicial da vida, não é uma sentença contra os vulneráveis; é um antídoto contra a mentira íntima que aplicamos a nós mesmos de que somos inúteis. É dizer: “há em mim uma estrutura que nasceu para persistir”. E essa é uma frase poderosa quando não vira cobrança, quando não vira chicote moral, quando não vira vergonha adicional. Ela é poderosa quando vira chão: um fundamento sobre o qual se pode reconstruir o respeito por si mesmo.

A tragédia contemporânea é que, mesmo sendo estruturalmente feitos para a continuidade, muitos de nós vivemos sob regimes psíquicos que nos fazem sentir descartáveis. Isso pode nascer de feridas antigas, de vínculos falhos, de abandono emocional, de humilhações acumuladas, de perdas não elaboradas, de pressão social, de solidão, de esgotamento, de adoecimentos mentais que turvam a percepção.

Em termos biofilosóficos, é como se o sistema que deveria proteger a vida entrasse em colapso de regulação, e o sujeito passasse a operar em modo de “pane”, perdendo a capacidade de ver alternativas. Por isso, afirmar a fortaleza humana não é negar a existência do sofrimento; é impedir que o sofrimento seja confundido com essência.

Sofrimento é um estado, não uma identidade. A pessoa pode estar em crise, mas ela não é a crise. Pode estar sem esperança, mas não é a desesperança. Pode estar cansada, mas ela não é o cansaço. A vida, dentro dela, continua sendo vida — e a vida tem um impulso próprio: buscar estabilizar, buscar ar, buscar apoio, buscar reorganização.

Há um ponto decisivo aqui: a força humana não é apenas “aguentar”. Às vezes, a força é pedir ajuda. Às vezes, a força é admitir “eu não estou bem”. Às vezes, a força é interromper o isolamento, procurar um adulto de confiança, um amigo, um familiar, um profissional, alguém que possa sustentar com você um pedaço do peso que sozinho parece impossível.

Na natureza, nenhum sistema complexo se mantém sem rede: células se cooperam, umas com as outras, os órgãos se comunicam, organismos dependem de ecossistemas. No humano, isso se chama vínculo. Não é fraqueza precisar do outro; é coerência com a própria arquitetura do estar vivo.

E aqui entra o núcleo central da nossa reflexão inicial: somos dependentes uns dos outros. A vida individual não é um castelo autossuficiente; é um organismo social. Quando a sociedade se desorganiza, quando a convivência se torna agressiva, quando a confiança se perde, quando a amizade empobrece, quando a comunhão se rompe, o sujeito paga um preço caro por dentro. E paga, muitas vezes, sem perceber que parte da sua dor não é “defeito pessoal”, mas consequência de um ambiente que adoeceu.

Concluindo, a fortaleza humana, então, tem duas faces inseparáveis. A primeira é biológica-existencial: há em nós um lastro de persistência, um princípio vital que atravessou impossibilidades para se tornar alguém. A segunda é ética-relacional: essa força foi feita para ser colocada a serviço da vida — a própria e a alheia. O ser humano é forte, sim, mas sua força não é destinada à arrogância; é destinada à responsabilidade. Ser forte não é dominar; é sustentar. Não é esmagar; é proteger. Não é humilhar; é levantar-se.

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