Fechar
Buscar no Site

A traição, aspectos comportamentais e psicopatológicos

RUY PALHANO
Psiquiatra, Membro da Academia Maranhense de Medicina e Doutor Honoris Causa – Ciências da Saúde – EBWU (Flórida EUA).

Trair é detestável, condenável e até abominável. É uma atitude altamente repudiada por todos e quando ela ocorre nas relações humanas é rejeitada, imediatamente. Ninguém, em condições normais e naturais aceita ser traído, seja por quem for, pois esta atitude corresponde a algo reprovável antropológica e psicossocialmente pois se sabe que é uma condição que pode gerar muita decepção, dor e sofrimento.

Etimologicamente, a palavra traição tem origem no latim traditio, que deriva de tradere, que significa “entregar, passar adiante”. Tradere é formado por trans-, que significa “além, adiante”, e dare, que significa “dar, entregar”. Do ponto de vista antropológico e fenomenológico, a traição, perpassa por diversos contextos — cultural, social, político, psicológico, jurídico ou até espiritual.

Na realidade, trata-se de um tema importante e recorrente em diversas culturas, mitologias e narrativas históricas, sendo explorado desde as relações interpessoais até as esferas de poder e moralidade coletiva. Sabe-se que historicamente, em algumas culturas, a traição está associada a rupturas de confiança, a deslealdade ou a valores sagrados.

Um dos maiores exemplos de traição que podemos citar é o caso de Judas Iscariotes, um dos doze apóstolos de Jesus Cristo, que, o entregou aos seus captores e, pelo desespero que isto gerou, enforcou-se, segundo a tradição cristã. Simbolicamente, a traição pode representar transgressão e mudança, sendo vista como algo que nem só rompe a ordem estabelecida, mas também pode ser considerada um acontecimento de transformações.

Portanto, podemos conceituar a traição como sendo o ato de violar a confiança, lealdade ou fidelidade, geralmente envolvendo uma quebra de promessas, compromissos ou relações de confiança. Pode manifestar-se de diversas formas, como por exemplo a traição emocional, que implica em infidelidade, abandono ou deslealdade emocional.

Traição física, como a infidelidade sexual, que implica muitas das vezes em adultério. A traição profissional, que quebra a confidencialidade, corrupção ou deslealdade no trabalho. Traição política, comum nos dias de hoje, revelada por práticas de corrupção, traição de ideais ou deslealdade política. Traição pessoal, caracterizada pela quebra de confiança entre amigos ou familiares.

Uma das mais importantes características da traição é a quebra de confiança. Ocasionando danos e sofrimentos enormes à pessoa traída. A deslealdade é uma outra condição muito ligada a atitudes de traição, gerando desconfiança e mal-estar geral a todos que estão às voltas com estas ocorrências. O engano é outro aspecto significativo presente nas atitudes traiçoeiras da mesma forma como a decepção e a infidelidade, onde as ambas as condições também colaboram para o sofrimento de muita gente.

Entre as maiores consequências da traição está a dor emocional profunda que se sente quando somos traídos, condição que pode gerar graves danos psicológicos a muitas pessoas. Outros danos tais como os legais, como ocorre na traição profissional ou na política provocando profundos impactos na autoestima e na autoconfiança nas pessoas traídas.

Outro aspecto altamente relevante é a psicopatologia da traição, revelados pelos fatores psicológicos e comportamentais que levam uma pessoa a agir de forma desleal ou a romper com pactos e relacionamentos de confiança. Esse tipo de apreciação considera tanto os aspectos individuais quanto os sociais e culturais os quais moldam comportamentos traidores.

Em sendo assim, quais os fatores psicológicos associados à traição? Algumas pessoas que apresentam padrões persistentes de manipulação, falta de empatia e desconsideração pelas consequências de suas ações podem apresentar traços relacionados a transtornos de personalidade, como os de personalidade antissocial e/ou narcisista, condições clínicas frequentemente relacionados às atitudes de traição.

O egocentrismo e busca de gratificação imediata, também, podem ser considerados aspectos relevantes de natureza psicológica, relacionadas à traição. Indivíduos que priorizam suas próprias necessidades e desejos acima de qualquer compromisso ético ou social podem estar mais sujeitos a atitudes traiçoeiras, considerando que esse comportamento pode estar relacionado à impulsividade ou à baixa tolerância à frustração.

A insegurança emocional é outro aspecto psicológico significativo, pois a traição pode ser uma estratégia defensiva usada por pessoas, emocionalmente inseguras e instáveis, que sentem a necessidade de manter várias opções ou redes de suporte por medo de ser abandonado ou passar por fracassos.

A traição também pode ocorrer com mais frequência entre pessoas que acreditam que suas ações são moralmente válidas ou permitidas. Estas atitudes podem ser inspiradas em mecanismos de defesa como negação ou projeção. Da mesma forma como a busca por poder ou controle, em contextos interpessoais ou profissionais, onde a traição pode ser motivada pelo desejo de dominar ou manipular situações.

Outros aspectos comportamentais, relacionados à traição, são os contextos sociais e culturais. A cultura em que uma pessoa está inserida, pode legitimar ou estigmatizar atos de traição. Em algumas sociedades, por exemplo, a traição é mais tolerada se os fins justificam os meios (como ascensão social ou sobrevivência). Além do mais, ambientes de alto estresse ou competitividade, como empresas ou instituições políticas, podem aumentar a probabilidade de comportamentos desleais.

Sentimento de culpa, remorso ou reclamação podem surgir em pessoas que traem, especialmente se elas forem confrontadas com o impacto de suas ações. Por outro lado, em indivíduos que não demonstram empatia ou que possuem mecanismos de defesa rígidos, a traição pode ser vista como um comportamento justificado ou até mesmo estratégico, sem causar sofrimento emocional evidente.

Portanto, podemos dizer que a traição na era moderna reflete as complexidades das relações interpessoais e sociais em um mundo profundamente influenciado por mudanças culturais, tecnológicas e comportamentais, podendo a mesma ocorrer, como vimos, tanto no âmbito pessoal quanto profissional, sendo interpretada de maneiras distintas em função das transformações contemporâneas.

O conteúdo deste blog é livre e seus editores não têm ressalvas na reprodução do conteúdo em outros canais, desde que dados os devidos créditos.

mais / Postagens