As dádivas de uma vida longeva

LUIZ THADEU NUNES E SILVA
Engenheiro Agrônomo, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.
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Pela terceira semana seguida escrevo sobre solidão. Nas duas anteriores, com título “A solidão não chega de repente”, ocupei o nobre espaço deste matutino para falar da morte do ator norte-americano Gene Hackman, encontrado sem vida aos 95 anos, em seu rancho no estado do Novo México, EUA.
Não sou especialista no assunto, aliás, não sou especialista em nenhum assunto, mas me fascina a trajetória daqueles que vivem muito, porque viver não é fácil, e ainda por cima muito perigoso. Se morre por nada, até por descuido. Em um mundo cada vez mais assustador, inseguro e violento, as chances de se morrer aumentam.
“Na verdade, esta vida só tem dois encantos: o previsto e o imprevisto”, Mário Quintana.
Hoje, caro leitor, amiga leitora, vou falar da alegria de viver dos Matusaléns contemporâneos. Pessoas que estão vivas e ativas aos 80, 90 anos.
Esta semana, li uma matéria no jornal El Clarin, de Buenos Aires, com Alberto Chab, que compartilho aqui.
Segundo a reportagem, tudo começou com um vídeo no TikTok no qual Alberto Chab, ainda com pouca intimidade com a câmera, fazia um convite. “Sou um médico de 97 anos e estou tentando formar um grupo com pessoas de mais de 90 anos, para trocar experiências sobre por que e como nós chegamos a uma idade tão avançada.”
Era abril de 2024, e a despretensiosa ideia ensinou ao psicanalista o tamanho do alcance que podem ter as redes sociais. Em poucos dias, mais de 1.500 mensagens chegaram à sua caixa de e-mail. Os remetentes eram seu público-alvo, os noventões, ou parentes deles, que em boa medida narravam a solidão na vida desses argentinos.
O longo processo de seleção terminou em uma iniciativa que, a cada 15 dias, se reúne no prédio no qual Chab vive em Buenos Aires: um grupo de cerca de dez idosos, com mais de 90 anos. “As únicas coisas sobre às quais não se pode falar são política e religião. De resto, falamos de tudo: ginástica, alimentação, pessoas que mudaram nossas vidas.”
Sua iniciativa colocada de pé aos 97 anos coroa uma vida de trajetória profissional muito bem sucedida – formado médico pela prestigiada UBA, a Universidade de Buenos Aires, ele é um nome reconhecido entre seus pares e teve entre seus pacientes os mais variados perfis, incluindo autoridades da Casa Rosada – mas também marcada por percalços, sobre os quais fala com detalhes de uma firme memória. Chab nasceu em Cuba e chegou à Argentina aos 5 anos de idade. O psicanalista é filho de pais judeus sírios, um comerciante e uma deserdada herdeira de um império de diamantes que decidiu deixar o conforto de Damasco para trás, rumo à genérica “América” dos anos 1910 ao lado do marido. Parada final: a pequena ilha caribenha.
No Brasil, temos inúmeros exemplos de pessoas ativas, trabalhando, criando, produzindo acima dos 90 anos, como: ator Ari Fontoura, as atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, assim com os ex-presidentes José Sarney e Fernando Henrique Cardoso.
Segundo o IBGE, 600 mil pessoas têm mais de 90 anos no Brasil. Apesar da idade quase centenária, alguns idosos mostram que ainda têm disposição para muita coisa, como praticar esportes ou mexer com novidades tecnológicas, escrever, e, acima de tudo, viver.
Conto essas histórias, porque em qualquer idade, seja perto dos cem anos, para continuar a caminhada, com propósito de vida, tem que ter metas, planos e principalmente histórias de vida para contar.
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