Fechar
Buscar no Site

Africano resgatado na costa maranhense morre e amigos fazem campanha para translado do corpo

Mamadou Lamarana chegou a São Luís em 19 de maio do ano passado, com mais 24 africanos; agora, voluntários fazem campanha para levar seu corpo de volta ao seu país de origem

LUCIENE VIEIRA

Voluntários e amigos do africano Mamadou Lamarana, de 22 anos, que faleceu no último domingo (10), depois de cinco meses internado no Hospital Dr. Carlos Macieira, devido a uma inflamação aguda do pâncreas, apelam para doações em dinheiro e anúncios em redes sociais para juntar R$ 50 mil, cobrados por uma funerária pelo serviço de translado, de São Luís a São Paulo (SP), e da capital paulista até Guiné, país africano onde Mamadou nasceu e vivia antes de vir para o Brasil. As doações podem ser feitas na conta de Raissa Padilha. Os dados são: Banco do Brasil, agência 2954-8, conta 57.116-4, variação 51.

Mamadou Lamarana era um dos 25 africanos que, no dia 19 de maio de 2018, estavam numa embarcação à deriva, na costa maranhense, próximo ao município de São José de Ribamar. Na embarcação, havia estrangeiros vindos do Senegal, Nigéria, Guiné, Serra Leoa e Cabo Verde.

À época, o grupo recebeu atendimento médico em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), quando teria sido constatado o quadro de desnutrição. Mamadou e os demais africanos foram levados para o Ginásio Costa Rodrigues, no centro de São Luís. Receberam ajuda da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop) até julho do ano passado. Depois, tiveram que sair do ginásio, e passaram a morar em uma casa cedida pela  Igreja Batista Nacional Vicente Fialho.

Em março deste ano, Mamadou Lamarana foi contratado pelo Supermercado Mateus; e, com carteira assinada, resolveu sair do Araçagi, e morar no centro da capital maranhense, onde pagaria o aluguel de um quarto. Mas, segundo informações apuradas pelo Jornal Pequeno, ele estava com cerca de 15 dias trabalhando no supermercado, quando os problemas de saúde se manifestaram, e o africano teve que ser levado a uma UPA.

No dia 27 de março, Mamadou Lamarana deu entrada no Hospital Carlos Macieira, onde ficou os últimos cinco meses de sua vida internado, diagnosticado com pancreatite aguda. O paciente fez duas cirurgias neste ano, sendo que em uma delas teve a vesícula retirada.

Mamadou Lamarana precisou de pessoas que se voluntariassem a acompanhá-lo no hospital, pessoas que quisessem abdicar de um tempo com a família, para passar o dia e a noite ao seu lado, no leito da enfermaria. E, internado, precisou de chinelos, de toalhas, e produtos de higiene. Todos esses itens teriam sido doados ao africano pela sociedade civil, mesmo que, segundo apurado pelo Jornal Pequeno, a Sedihpop estivesse ciente da situação.

Uma das voluntárias no acompanhamento de Mamadou no Carlos Macieira foi a estudante Tanazia Frazão. Por telefone, Tanazia contou ao JP que conheceu o grupo de africanos refugiados, logo após eles terem sido resgatados naquele dia 19 de maio de 2018. “Eu os ajudava, na medida do possível, e eu mantinha contato com eles, por meio do WhatsApp e do Facebook. Foi assim que soube que Mamadou ficou doente”, disse a estudante.

O jovem africano de 22 anos chegou a pesar 35 quilos. No dia 7 deste mês, ele foi transferido da enfermaria do Carlos Macieira para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do hospital. Três dias depois, ele morreu.

Segundo Tanazia Frazão, à priori, o pai de Mamadou Lamarana, que trabalha em Cabo Verde (África), disse que o corpo do seu filho poderia ser enterrado em São Luís. Depois, ainda muito abalado com a triste notícia do falecimento, o pai informou seu desejo de ter o corpo de Mamadou e dar a ele um funeral muçulmano.

Para que seja enterrado em São Luís, a família do africano precisaria encaminhar um documento de autorização. E, devido a essa não autorização, o corpo de Mamadou permanece no Instituto Médico Legal (IML), situado dentro da Universidade Federal do Maranhão (Ufma), no Bacanga, em São Luís.

Segundo Tanazia Frazão, uma opção seria levar o corpo para São Paulo, onde há cerca de 120 muçulmanos, e existem mesquitas, locais sagrados onde podem ser feitos os rituais para o morto. “A declaração de óbito emitida pelos médicos do Carlos Macieira só garante a permanência de Mamadou por 15 dias no IML; depois desse prazo, ele precisa ser retirado de lá. Se não conseguirmos que ele chegue até a África, que pelo menos seja enterrado em São Paulo por outros muçulmanos, que podem acolher o corpo em uma mesquita”, disse Tanazia Frazão.

A estudante contou que o prazo no IML se encerra no dia 24 deste mês. Após essa data, Mamadou será levado para uma funerária, e isso vai gerar mais custos. “Então, se a gente não conseguir o dinheiro até essa data, suficiente para fazer o translado do corpo, vamos ter que nos preocupar, também, com o local onde o cadáver ficará até que tudo se resolva”, disse Tanazia.

TRANSLADO

O Jornal Pequeno procurou um agente funerário para explicar como funcionaria o translado. Miecio Castro, que trabalha em uma funerária de São Luís, contou que o primeiro passo de um translado é o embalsamento, feito em laboratório especializado, e que as dosagens aplicadas do produto químico no corpo, correspondem ao período em que o cadáver ficará conservado, que varia de dias a meses.

Miecio Castro disse que a urna de um translado é diferenciada à de um sepultamento normal; ela deve ser de zinco e lacrada, critérios que atenderiam às exigências da vigilância sanitária. Depois do corpo embalsamado e colocado na urna de zinco, o serviço funerário daria entrada à guia de translado em qualquer delegacia da Polícia Civil, pois o documento precisa da assinatura de um delegado.

É no aeroporto que a Vigilância Sanitária faz vistoria da documentação e da urna. Também é no aeroporto que é feito a pesagem do corpo, que seria transportado como carga. Somente para chegar até São Paulo (SP), os custos, segundo o agente funerário, chegariam a aproximadamente R$ 8.500. Todo o processo, segundo Miecio Castro, seria feito em 48 horas. De São Paulo, para que a viagem seja continuada até Guiné, a embaixada da Guiné no Brasil precisa ser comunidade.

VOLUNTARIADOS

A estudante Tanazia Frazão disse que, nos primeiros dias de Mamadou internado no Carlos Macieira, ela era a única que ficava com o africano. “Passei a pagar para que pessoas o acompanhassem. E essas pessoas que eram pagas, começaram a se voluntariar com a causa, e às vezes me cobravam pelo tempo que ficavam no hospital, mas em outras vezes não. Também consegui, neste sentido, a ajuda de amigos e familiares meus. Foi uma corrente do bem em prol do Mamadou”, declarou Tanazia.

Agora, estas mesmas pessoas realizam a campanha de arrecadação dos valores para o translado. Qualquer informação pode ser verificada com Tanazia, pelo telefone (98) 988242018, ou Raissa Padilha (a titular da conta bancária das doações), no número (98) 982425300.

POSICIONAMENTO DO ESTADO

À estudante Tanazia Frazão, que é quem está à frente da campanha de arrecadação para o translado de Mamadou, até na manhã de ontem (15), nenhum auxilio do consulado brasileiro ou da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop) teria chegado. Porém, em nota enviada ao JP, a Sedihpop informou que iniciou os trâmites de liberação do corpo com a embaixada da Guiné no Brasil, e que aguarda definição da família sobre o translado.

Também em nota, a Sedihpop informou que “o corpo do jovem africano permanece no IML em condições adequadas de conservação e, em paralelo, amigos de Mamadou e voluntários da sociedade civil organizam uma campanha de arrecadação financeira para viabilizar o transporte de volta a seu país de origem”.

O conteúdo deste blog é livre e seus editores não têm ressalvas na reprodução do conteúdo em outros canais, desde que dados os devidos créditos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

mais / Postagens