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‘Não adiantou a bronca’: prefeito polêmico do MA que defendeu isolamento lamenta 7 mortes

Do UOL – De chapéu, bermuda e bota, o prefeito de Trizidela do Vale (MA), Fred Maia (MDB), viralizou em março em um vídeo compartilhado nas redes sociais. Revoltado, ele deu bronca na população que não aderiu ao isolamento social como prevenção ao novo coronavírus. Quase dois meses depois, o político agora lamenta mais de cem casos da covid-19 na cidade e uma fila de pacientes à espera de leitos. Sete óbitos já foram registrados.

“Não adiantou [a bronca], porque ninguém quis acreditar que o vírus chegaria”, afirmou Maia, em entrevista ao UOL. No vídeo que repercutiu na internet, Maia concedia entrevista ao programa “J9”, do jornalista Coutinho Neto, na TV Ouro Vivo, retransmissora do SBT, em Trizidela do Vale, a 335 quilômetros de São Luís.

Aos gritos, o prefeito deu uma bronca na população por desobedecer a recomendação de isolamento social como estratégia para a prevenção ao novo coronavírus.

“Lá na China, sabe por que controlam? Porque lá se o ‘cabra’ não respeitar, vai para o cacete, vai para o pau. Aqui no Brasil, com a ‘sem-vergonhice’ dessas leis vagabundas, o vagabundo quer estar no meio da rua. […] Isolamento é para estar dentro de casa. Não é na calçada, não. A coisa está séria”, revoltou-se o prefeito, entre vários palavrões.

“Tem uns filhos de umas éguas que estão fazendo visita. Vai fazer visita na casa da sua mãe, p…rra. Não vai para dentro de abrigo, não. […] As coisas agora vão ser assim. No grito, na porrada e no spray de pimenta para aprender. O brasileiro quer ser diferente de todo o mundo e não quer respeitar as coisas? Está vendo nos outros países, todo o mundo respeitando? As Olimpíadas agora mesmo foram canceladas”, complementou Maia, bastante irritado.

“Eu sou meio bruto, mesmo”

O prefeito —que está seu segundo mandato— afirmou que naquele dia estava “cheio de coisas” por causa da enchente que atingia a cidade em paralelo com as ações de combate ao novo coronavírus.

O rio Mearin invadiu a cidade, causando a pior cheia desde 2009. A situação provocou o fechamento do comércio por 30 dias, e a retirada de mais de 1.700 pessoas de suas casas para abrigos. Apesar do estresse, ele garante que esse é seu jeito, mesmo.

“Eu sou meio bruto, está entendendo? Hoje em dia, quem diz a verdade é tratado como bruto, doido ou ignorante. Então, eu falo a verdade para qualquer um, pode ser para o governador, presidente ou deputado. Disse umas verdades para o governador [Flávio Dino], e ele até ficou enfezado comigo. Meu irmão, não tem conversa mole comigo, não. Falo duro mesmo, e a realidade era aquela. Estávamos em uma enchente, e o povo todo na rua, como se nada estivesse acontecendo?”

Não há leitos de UTI

Novo hospital de Trizidela do Vale - Divulgação

Maia se diz aflito porque a população não entendeu a bronca na TV. Trizidela do Vale tem atualmente 109 casos confirmados, com sete mortes.

A preocupação externada na TV tinha relação com a própria estrutura de saúde do município. Com o avanço da covid-19 na cidade, os pacientes diagnosticados passaram a ficar em um hospital de campanha improvisado em uma escola municipal após a UBS (Unidade de Básica de Saúde) alagar com a enchente.

Além disso, a cidade mais próxima com um leito de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) fica a mais de 100 quilômetros — trata-se de Coroatá, mas lá também não há mais vagas. Dois pacientes de Trizidela do Vale aguardavam hoje por transferência.

A previsão do prefeito é que o problema amenize a partir de segunda-feira (18), quando está marcada a abertura de um hospital com 25 leitos e três respiradores. Dois deles são alugados.

“A gente brigou para o pessoal não ir para a rua, mas não teve jeito. O hospital está lotado e não tem leito para botar o povo. Está muito difícil”, criticou Maia.

Circulação entre cidades é desafio contra a doença
Fred Maia afirma que é a favor do isolamento rígido, o “lockdown”, mas pondera que a medida seria viável somente se a cidade vizinha, Pedreira, também decretasse o fechamento total, pois é no outro município que a população de Trizidela do Vale busca atendimento bancário e faz compras em lojas de departamento.

O fluxo entre as duas cidades —separadas por uma ponte— aumentou em razão do pagamento do auxílio emergencial, segundo o prefeito.

Trizidela do Vale tem pouco mais de 5.000 famílias inscritas no CadÚnico (Cadastro Único) do Governo Federal, o que representa quase o total da população, se for considerada a média de quatro pessoas por família, conforme estimativa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em abril, eram 3.338 beneficiários no Bolsa Família. Com a população dependente de auxílios, fica inviável controlar o fluxo entre as cidades.

“Se a gente contar os 15 dias antes do primeiro caso, vai dar certinho com o pagamento do auxílio emergencial. O isolamento só resolve agora se for de maneira universal, fechando tudo. As pessoas são teimosas demais. Fecha tudo ou não adianta”, afirma o prefeito, que, em meio à pandemia na cidade, diz tomar todos os cuidados por ser hipertenso.

“Só estou me salvando porque ando com duas máscaras, luva, tomo banho de álcool e uso azitromicina a cada 15 dias.”

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