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Educação em tempo de pandemia!

Ter um período letivo ministrado durante uma pandemia foi algo extraordinário. O impacto da surpresa e a necessidade de resguardar-se em quarentena, a imposição de uma nova realidade antes inimaginável, tudo constituiu um novo mundo às avessas. Lembro-me do medo inicial quando o governador anunciou a primeira morte na capital maranhense. A pandemia se anunciava como uma espécie de antiestrutura (Lévi Strauss, Turner), impactou nosso habitus adquirido (Bourdieu), angustiou nossos corpos dóceis e esquadrilhados (Foucault) e espalhou-se estabelecendo outras formas de consciência coletiva (Durkheim)

A sala de aula também precisou se ressignificar diante da realidade que se impunha e nós, professores, tivemos de experimentar e aprender juntos novas maneiras de impactar, de transformar vidas e de exercer a docência com competência e paixão. Isso não foi uma experiência fácil, mas também não foi impossível!

Minha preocupação inicial era: nesse novo contexto, on-line, como relacionar teoria e realidade? Como destacar a substância concreta e simbólica que preenche as disciplinas de Antropologia e Sociologia? Entretanto, a própria estrutura orquestrada pela situação de pandemia foi um laboratório rico e pulsante de exemplos. A realidade estava ali, ao alcance da tela, exposta na televisão, apreendida através do computador e do celular, impactando a economia, as relações familiares, a ciência, a política, os modos de vida, a religião, a educação em geral, a justiça, a violência, a solidariedade etc.

Para trabalhar os clássicos da Sociologia, o rico laboratório social/virtual permitiu-me relacionar Durkheim e a coerção social que se manifestou na pandemia, delimitando uma nova mobilidade, outra sociabilidade, outra solidariedade orgânica e mecânica e outra consciência coletiva.

Max Weber também estava ali, possibilitando-me analisar, entre outras coisas, qual a relação entre a ética protestante e o espirito capitalista, em quarentena. Ou ainda, qual o sentido da ação social de um indivíduo resguardar-se numa pandemia?

As teorias de Karl Marx também estavam estampadas na realidade: a mais-valia e o discurso de classe ganharam visibilidade quando se começou a enfatizar que nenhuma máquina ou “capital morto” é o suficiente para enriquecer o empresariado, mas a mão-de-obra, o trabalhador que anda em ônibus lotado, mesmo em tempo de pandemia, é a principal moeda do lucro. Também se pensou no aumento do exército industrial de reserva, que explode em tempos de crise, e expõe a necessidade de se questionar a concentração de renda sem limites, questionar também o “privilégio” de se poder utilizar água potável ou não, condição básica de higiene e saúde.

Para a Antropologia, além das teorias gerais, a ênfase das questões temáticas foi o debate sobre racismo e ele também pulsou na tela de TV, nos telejornais, em lives, em manifestações e reações justas (nos EUA, na Europa, no Brasil, no mundo todo). Em aula foram debatidos o racismo religioso, o encarceramento, violência policial e racismo, pobreza e racismo, educação, mercado de trabalho e racismo. Aqui, cabe destacar o surpreendente empenho da turma (mesmo com aula virtual) em realizar as pesquisas, realizar entrevistas com vários jovens, via celular e, por fim, elaborar vídeos.

Os frutos de todo esse debate e contextualização com a própria realidade vivida, além de promover o encantamento dos alunos – porque veem a relação lógica entre teoria e prática- vislumbra a possibilidade de que sejam futuros advogados, juízes e pessoas mais humanistas. Esse tipo de contextualização, que “tira o aluno do lugar” e faz com que se sinta vivo, resgata a utopia como possibilidade no horizonte de uma sociedade mais igualitária, inclusiva e, de fato, civilizada. Por fim, enclausurados em casa ou não, a docência é combustível para formação e transformação das pessoas e da realidade em geral. Transformação para melhor, para a dignidade, justiça e respeito!

Isanda Maria Falcão Canjão

Mestre em Antropologia social

Doutora em Ciências Sociais

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